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09/04/2024

Diário

Depois de me deitar muito cedo e dormir cinco horas, perdi uma a esboçar espécie de índice no que comecei hoje a fazer – ainda não a escrever. Este entretém vai-me ser útil não só para arrumar ideias, como para abstrair da parvoeira que grassa na actualidade portuguesa – vai ajudar a manter o tempo ocupado e distância do frenesim faccioso da opinião publicada. Pelo meio ouvi um pouco de música pacificada e li dois postais “antigos” aqui da casa. E distraí-me em pensamentos.


Agora antes de fechar o computador e na intenção de voltar à cama uma horinha para amanhã não cabecear a seguir ao almoço, voltou à ideia a presunção da antecipação. É petulância, sei, mas não consigo deixar de pensar como a actualidade portuguesa anda sempre com umas décadas de atraso, desfasada, anacrónica. Há vinte, há dez, há talvez ainda cinco anos ou menos do que isso dei por mim muitas vezes a pensar e algumas a escrever e publicar acerca da avassaladora predominância do discurso e mentalidade de esquerda na comunicação social, nas redes sociais e por isso na maioria da população. Então fazia sentido guinar um pouco à direita para repor o equilíbrio. Oiço hoje espalhados por aí argumentos e pontos de vista que defendi há vinte anos.


Como é costume a realidade da retórica mudou. Seja pelos ventos que vem de fora do país, seja pelo recrudescimento da direita troglodita portuguesa – a moderada não teve variação visível e parece ir um pouco a reboque – que distorce com oportunismo argumentos democráticos válidos para impor a lei da selva ou do mais forte que tanto aprecia.


Quanta presunção: como se estivesse ao leme de uma embarcação guinei a bombordo, em contra-corrente como é usual.


Entretanto a que assisto no momento em termos políticos? À intenção de satisfazer as reivindicações do eleitorado que decide as eleições. E aí não há divergências nos vários partidos representados no Parlamento, desde os moderados aos anti-democráticos. Tal como a comunicação social e redes sociais de referência estão todos de acordo na ladainha miserabilista do costume. Apesar de tudo parecer de pernas para o ar na iminência de uma guerra à escala global, nada de estrutural mudou em Portugal.


Li por aí alguém insurgir-se contra a falta de atenção aos outros, creio que por suposto egocentrismo espalhado no mundo virtual. É curioso: os que menos respeitam os demais são normalmente os que não reparam na atenção e disponibilidade que alguns têm com os demais, nunca se satisfazem com o que é ou foi dado – querem sempre mais e mais, querem secar o que os rodeia, pilhar e ocupar o centro da atenção e respeito e quando muito lá do pedestal paternalista da treta mostrar interesse pelo que os outros dizem ou pensam.


Quando era miúda gozava com este tipo de reparos que acabei de fazer. Fui educada a considerá-los uma menoridade – coisa de gente rasca. Até compreender que a vida é mesmo assim e o que parece uma menoridade é tão só a constatação da realidade. A mediocridade do país impõe-se assim: ao enaltecer em compadrio o que tem pouco valor – o reles presumido - vendendo-o como saber, verdade ou ciência e ao desdenhar do que está à volta de real valor caso não preste vassalagem ou renda dividendos pecuniários, audiência ou reputação. Nada que já não tenha dito aqui nas Comezinhas à exaustão.