Não é que pudessem fazer melhor. Embrulhados em preconceito e vidas demasiado pequenas para dar resposta às catadupas de perguntas que o mundo lá fora foi levantando. Não é muito o que lhes chegou do passado ao longo da vida por testemunho directo, familiar ou de amigos. Cresceram com minhocas na cabeça sem solução. O mundo que a televisão, comunicação social e Internet relatou foi enorme. O mundo que a música e o cinema transmitiram foi empolgante. O que os livros instruíram foi muito. O que as relações interesseiras e superficiais trouxe foi exuberante. Mas não são capazes de discernir e desfazer os nós da causa das coisas. Falta em profundidade e abrangência o que sobra em aparente complexidade. Falta intimidade com a emoção e a razão. Falta simplicidade. Emprenham pelos ouvidos e pelos olhos e regurgitam sem processar. Os mais sensíveis debitam com cunho pessoal a confusão mental assim gerada. Outros mais espertos e rasos atiram certezas com oportunismo. Mundos muito pequenos, mesmo quando viajados, mesmo quando experimentados em relações humanas, mesmo quando capazes de ironia. Caixas sensoriais e racionais exíguas.
Deves compreender isto e não exigir demais. Até porque cada caixinha pequena dessas traz sempre qualquer coisa, por insignificante seja, com que podes aprender. É importante compreender atitudes, reacções, gostos, aproximações ou repulsas e segregações. O porquê das agremiações, escolhas e histórias de vida. E não precisas sentir complexo de culpa por ver isto com distância, como se sentada num ponto de vigia soerguido, dando-te o ar errado de imodesta. Nem precisas de te acusares de não possuíres a simulada nobreza de espírito de ver grandeza em cada um desses mundos. Não te iludas. Aceita a vida tal qual é.
A diferença entre dois autores que leste há dias é abismal. Dois homens. Um que te parece boa pessoa e de quem já conheces obra vive fechado nas suas sombras confusas e percepções obscuras e tacanhas. Com a melhor das intenções julga ser justo com as mulheres não imaginando o quão necessário seria preciso tirar-se a si próprio do anacronismo sombrio. Lê-lo faz-te estabelecer paralelos com várias mulheres e homens que foste conhecendo e lendo ao longo da vida com um traço comum: incivilidade e falta de inteligência ou personalidade doentia. Tantas vezes gente de bons sentimentos e bem-intencionada, mas muitíssimo limitada. Convencidos que estão a lutar por um mundo melhor. Alguns com sucesso. Outros, cheios de esquemas e subterfúgios, pródigos em avaliações primárias e julgamentos físicos e psicológicos básicos ou retorcidos, com tendência para comportamentos verbais agressivos dissimulados. Tendo-se por sumidades. Tendo-se por exímios manipuladores. Alguns com muito sucesso. O segundo autor, de quem leste muito pouco – mais vais procurar ler mais -, é luz e clareza. Capaz de criar. Não precisa fazer esforço para compreender as mulheres. Observa e constata. Foi bafejado pela lucidez e é-lhe fácil ser justo sem sequer ter a pretensão de apregoar o empenho em causas.