Estás no bom caminho. Se fores capaz de deixar de lado miudezas escrevendo mais do que bonito e certo, inteiro. Continua a desagradar. Há semanas imaginaste discorrer sobre tanto quanto querias dizer. Talvez logo à noite depois de assar o pargo possas dormir uma hora para acordares disposta a escrever madrugada fora coisa que te valha a pena. A ti. Não a ninguém – o dirigido a outrem é sempre que menos interessa, apesar do mais cobiçado, apesar das carapuças descabidas que nele se enfiam. Escreve dirigido a ti. Ainda tens tanto para conversar contigo própria – o diálogo eterno que se desenrola desde que és dez réis de gente. Ah, as competências sociais. Ah, a empatia. E os padrões, e o raio que os parta a todos (todos não, mas a muitos) mais os umbigos cheios de si e de convencimento que o mundo gira em torno de si (e a narcisa és tu, dizes) e das suas certezas, com incompreensão total pela diferença de natureza de cada um e o direito a expressá-la. O que terias para dar de melhor se desses ouvidos às palermices em vez de seguires a intuição? Cabe-te sim compreender a sorte de ser entendida por quem traz luz em si mesmo ao invés de veneno julgador e castrador. Conviver com a inteligência de quem não te teme nem inveja – quem te procura saber, a ti e aos demais, com curiosidade sã. Viver com quem admiras pela simplicidade da busca de entendimento do funcionamento da vida. Procura mais gente desperta e de valor, rapariga. Gente menos mestra régia, manipuladora e soberba, gente mais compreensiva, esforçada e compassiva. Segue caminho a tropeçar em gente boa e com luz própria e abstrai do que te aborrece e faz perder tempo. Não podes evitar maus encontros, mas podes desviar-te do que é rude e ardiloso e concentrares-te na sorte que tens em lidar também com gente boa e num mundo interior que transborda – duas fortunas de uma assentada, rapariga. Não te irrites com o que não interessa. A vida sorri. Somos todos feitos da mesma massa de partículas em porções diferentes, algumas muito desajustadas - desfalcadas de sensibilidade e/ou inteligência. Muita da injustiça que sentes no mundo deve-se à incapacidade de compreensão – a noção do justo não está ao alcance do entendimento de todos.