Depois de logo na passagem de ano de 2019 para 2020 aqui trazer um prato de bacalhau no forno, há três anos anunciara no blogue que iria postar uma semana de jantares. Como não raro, à época não cumpri. Ficou feito sem rigor nestes últimos dias. Cinco refeições banais seguidas: carne de porco com cogumelos marron e arroz branco; salmão com batata cozida e couves-de-bruxelas; salada tomate, beringela, espinafre e outros legumes, ovos cozidos, mozarela e azeitonas; favas com carne de porco e enchido; pastéis de bacalhau com legumes e arroz branco. E espero encerrar ou pelo menos diminuir drasticamente este cansativo mostruário gastronómico trivial. Se me perguntarem porque o fiz, respondo que nem sequer o preparei previamente, saiu espontaneamente, mas resultou bem no meu critério por falta de paciência para sofisticações pouco convincentes a que o mundo moderno nos habituou. É evidente que cada um tem os seus hábitos e gostos, porém a contínua busca de aparência é entediante.
Devia arranjar um tópico diferente. O ano passado introduzi os trapos com o mesmo critério de simplicidade, avessa a modas. Mas não sou capaz de gastar muito tempo com esse tema. Atraem-me mais as lojas e artigos para casa. Também já aqui aflorei esse gosto longe das lenga-lengas de decoração mainstream dos conceitos minimalistas, que vão dar ao mesmo paradigma da escrita enxuta e a necessidade imperiosa de deitar ao lixo dois terços do que escrevemos para deixar o diamante puro. Balelas que se vão repetindo à exaustão ao longo do último século como dogmas baseadas em sensações e inclinações de alguns autores - sobretudo poetas, para o trabalho dos quais a dica tem lógica - que não são mais do que técnicas a seguir apenas se fizerem sentido. E diz-vos isto quem deitou ao lixo não dois terços, mas tudo quanto escreveu até aos 33 anos, por isso aprecia pouco a presunção daqueles que se acham no direito e dever de impor critério, quando notoriamente não o têm nas suas escolhas, privilegiando o rasca presumido na forma e o preconceito e oportunismo na substância. É fácil apontar falhas e dar lições balofas de rigor aos que não apreciamos ou não nos dizem amén, difícil é viver da exigência connosco próprios e com os que gostamos - disso os iluminados alrabões são incapazes.
E mais que tenho a dizer? Duas notas de ridículo. A primeira para anotar que há gente que tem a lata de achar que em Portugal não se valorizam as ciências humanas e sociais e que somos medíocres por causa da aposta na ciência e nas novas tecnologias. A preguiça mental destes arautos da inteligência nacional vai continuar a conduzir-nos à estupidez generalizada muito convencida da sua sapiência fajuta. Gente incapaz de raciocínio lógico, de compreender o funcionamento da natureza física e humana que, por não ter qualquer inclinação para as ciências e tecnologia, habituada que está a perorar por mero gosto de retórica e replicação do que ouve, delas tem medo e foge em vez se ocupar de tentar entendê-las. O pior cego é aquele que não quer ver – mas isto que vende e é destacado, essas sumidades do vácuo. A segunda nota para voltar a insistir na ideia que quase me comovo com os self made man e woman dos tempos modernos. Ao lado de gente de valor, apostada do estudo, trabalho e empenho, que viveu ou vive com real independência e que normalmente não perde tempo a fazer discurso de superação nem a contar histórias trágicas de engodo, resmas de trepadeiras humanas, que se esgadanham por um lugar ao sol de modo dissimulado, singram à custa do elogio oportunista, da bajulação e do encosto nas tais elites endogâmicas que dizem desprezar. Quanto mais se afirmam lutadoras, trabalhadoras, sérias e independentes - quanto mais dizem fazer limonada ao espremer limões - mais se lhe notam as estratégias de ascensão à custa de métodos pouco ortodoxos que não passam pelo mérito. Nunca assumem o que bem sabem por experiência própria: quão aleatório é o critério de sucesso singrando lado a lado o fruto do trabalho e o saque dos embusteiros. A estratégia dos iluminados é que não se distingam.
E pronto, aqui ficam as trivialidades de hoje.