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15/04/2024

Diário

Está tudo de pernas para o ar. É noite de Domingo, o mundo aguarda a reacção de Israel ao ataque do Irão, o Conselho de Segurança da ONU está reunido e só há uma hora pus a roupa miúda da semana na máquina de lavar. A roupa de casa já está lavada, pronta para a dona L. passar amanhã.


Enredei todo o fim-de-semana. Se houve momentos bons como a tarde e noite de ontem, janelas abertas, aragem verde de Primavera, descanso consciente e conversa doméstica cúmplice à volta dos nossos interesses, as madrugadas foram para o tecto e não devo mesmo correr riscos. Sinto a mioleira comprimida e pesada, em tensão e os próprios músculos das costas junto ao pescoço entesados, o que não é bom sinal. Pior ainda se a nuca estivesse presa, aí seria aviso de risco grave para o juízo.


Se ainda tivesse tirado proveito, mas qual quê? Fiz sobretudo cera. Isto de gostar da própria companhia tem muito que se lhe diga - é um prazer aprendido por quem tirou partido de um longo percurso solitário sem se envaidecer de modo oco com a auto-suficiência e sem dela dar lições. É bom ao criar lastro para pensar e escrever, por dar tempo para a reflexão, porém faz dispersar o foco dos planos. Ontem ao fim da noite, depois de duas horas de conversa, vim sentar-me no +1 e após emaranhar um pouco peguei numa das histórias de Portugal – estão maioritariamente lidas. Mas logo ao fim da introdução tresmalhei. E foi-se o estudo pró maneta. A despropósito, na semana passada na livraria, peguei num livro a pensar comprá-lo, e de repente fez-se luz: caramba, este já li há dois anos. E é assim a minha maravilhosa memória.


Muito mais interessantes foram os momentos passados ontem de madrugada numa qualquer página de quiromancia. Por razão casual vi uma fotografia de uma palma de mão nas páginas das notícias da actualidade e lembrei os tempos da adolescência em que me dedicava a esta bruxaria. Recordo da paciência infinita da avó, quando numa das temporadas a duas em Valinhas, pedi que me deixasse ler a sua mão. Fiquei fascinada por ver uma linha da vida igual – não conheci mais ninguém com a mesma linha cortada ou dispersa por diversas linhas. Como viveu até aos 92 anos, julgo que há probabilidades de chegar a uma idade bonita. Entretanto já me havia esquecido do significado, mas dizem os bruxos que por ser dupla significa corte repentino ou mudanças bruscas na vida, ou por conter diversas linhas representa vitalidade extra. E dei por mim a sorrir com a memória do comentário da avó quando lhe descobri uma linha debaixo do dedo mindinho que me intrigava não conseguindo apanhar o sentido ao ler as revistas. Menina, é normal que não perceba, esse foi o destino do golpe de vidro com uma garrafa de cerveja que se partiu. Rimos as duas. E acabaram por aí as minhas actividades adolescentes no mundo da quiromancia e um futuro brilhante como sibila. Até ontem ter reparado na linha do destino que apesar de leve atravessa toda a mão desde a base, cruzando com uma das linhas da vida indo acabar no dedo mindinho. Ainda não vi o significado, ou melhor, já vi nos destaques que uma bruxa lhe chama linha da saúde, mas como reparei há dez ou doze anos ser a mesma que na astrologia recomenda comer brócolos, achei que não valia a pena abrir a página.


Como vêem continuam a perder tempo lendo as Comezinhas. Entretenham-se com gente que enuncia muita leitura, memórias, relatos e projecções que comovem ou enobrecem os autores  e ironia sofisticada que os ilustra. Aqui só há trivialidades de gente básica e sem interesse que até escreve acerca de compras e preços de artigos do supermercado. Ou então, se apetecer deixem-se levar pela ideia simples que tenho em mente, e percam dois minutos a olhar para a palma das vossas mãos – ou uma xícara de café, uma cigarra ou um lápis. Tudo vai da predisposição para aceitar com curiosidade o outro, se este se apresentar genuíno e não produzido para enganar.


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A palma da mão direita tal qual é e não tal qual a pretensão de ser à custa do logro.


*


E agora mais um despropósito extra postal: os mal-entendidos geram-se por não haver lisura e franqueza. Em regra não desconfio, mas a partir do momento em que os propósitos não estão definidos e confiro haver hábito de enganar, pilhar, causar dano e promover quem engana, pilha e causa dano, não tenho razões para acreditar na bondade das palavras ou acções, sobretudo, encobertas.