Bem-disposta com a luz dos últimos dias e a poisar cheia de planos de mudança no termo de um fim-de-semana que correu a contento. Perfila-se uma semana mais curta já que irei aproveitar o 25 de Abril para tirar a próxima sexta-feira de férias e assim ficar de gazeta quatro dias. Claro, à custa de um dos 22 dias de férias anuais e não de alguma facilidade de privilegiado funcionário do Estado, sempre tão desgraçadinho e herói na luta por um lugar ao sol.
Gosto destes tempos sem frio nem calor de brisa suave e vontades reforçadas. Fomos a Almada, encontrámos tudo sereno. O Nuno foi espairecer com o P. – em princípio, virá cá passar uns dias no próximo mês - e um amigo. Conhecemos a primeira casa da minha enteada R.. Alegria, a primeira casa. No caso dela com muito trabalho nas folgas a raspar paredes e tectos para pintar. Nisso mesmo estava dedicada ontem. A noite bem dormida atenta a temperatura excelente e o saudável hábito em casa da mãe do Nuno de deitar cedíssimo. Assim o começo do dia é melhor aproveitado.
Ao fim da manhã uma corrida desaustinada por Lisboa para apanhar o comboio. Na viagem recebi e fiz alguns telefonemas. Ainda deu para ler uma dúzia de páginas do livro que me acompanhava - e me pôs a pensar na diferença de mundividência e destreza de escrita entre gente e fases de vida social intensa por contraste com existências mais despovoadas de interacção e maior disponibilidade interior; não mais do que a dúzia de páginas para não me cansar. Ligou-me o meu afilhadinho, e lá pusemos a conversa em dia acerca das vidas após cirurgia, dos amigos e da ida em trabalho a Milão no próximo mês, sem tempo para ver nada; pena. E uma vez que há semanas me havia mandado mensagem a dizer que queria combinar estarmos juntos, liguei à F. a convidar para almoçar connosco no dia 25. Neste feriado atenta a xerichia na rua, é sempre bom estar sossegada em casa. Porá a conversa em dia com o Nuno, antes de abalar, emigrando novamente - dada a falta de emprego em Portugal. Depois liguei à T. para repor a falha no combinanço da tarde no Cinema Batalha e sugeri dizermos também ao C., para nos juntarmos os três da vida airada daqui a 15 dias. A ver vamos se concretizamos. Não há como uns dias de sol para voltar a vontade de ver gente e estar com os amigos. É cíclico. Julgo que é para isso que o Universo engendra equinócios e estações. Por falar nisso nunca mais me lembrei de procurar as pinturas pirosas das quatro estações.
Despachámo-nos rápido para o comboio: não o queria perder já que tínhamos combinado visitar um apartamento aqui perto pouco depois da hora de chegada a Campanhã. Mais uma andança a pé, agora pelo Porto, num dia perfeito em brisa, temperatura e cheiros. Há qualquer coisa de belo no ar que não sei explicar, e vem de fora para dentro. Não, não vi o passarinho, tirando o melro que anunciou o muro do prédio da casa que fomos ver e de que não vou falar para não azarar. Gostámos muito.
Em casa o Ritz mostrou-se contente com a nossa chegada, chamou a atenção o máximo que pôde para puxar brincadeira e snacks e tudo regressou ao rame-rame. Quando me preparava para fazer uma salada de alface iceberg, ovos cozidos e atum, o Nuno pediu que juntasse uma batata cozida. Estava com fome. Comemos e fizemos as compras online no Continente.
Pedi que fosse para dentro ver o programa de humor de Domingo, por não ter pachorra. Mas oiço daqui da sala, onde a televisão está desligada, o humorista a gozar com uma sujeita que há muito considero completamente destemperada e desajustada da realidade – há anos fiz um postal inspirado nela sobre o apelo do reles e das histórias de faca e alguidar e inspirado também noutra figura pública portuguesa, essa masculina, discreta e sonsa. Dizendo-se amigo da dita é patente o contraste em papel-químico; refulgem na praça pública portuguesa pela elevação do vulgar ao patamar do intelectual mesclando-o com laivos de vida civilizada que cobiçam; a intelectualização do reles e a busca do lugar-comum literário. Com natural sucesso – muito considerados pela elite fajuta nacional - e ao que vou vendo nos últimos anos com vários discípulos a singrar. No caso dela, os homens com audiência que alçam ou destroem a passarela pública, só agora deram por isso, já que andaram anos fascinados com tanta inteligência, conhecimento e coragem. E no fundo mesmo os que agora satirizam com grande entusiasmo o que antes gostavam tanto, até continuam a apreciar – o género é o seu target. Enfim, o luxuriante rame-rame da vida pública portuguesa.
Lá estão as Comezinhas a perder tempo com má-língua. Antes continuasse no registo do quotidiano caseiro, sempre se gastariam menos neurónios – não, dizem os iluminados, a vida caseira é para esconder por fazer parte da esfera íntima, não compreendendo a diferença entre viver com naturalidade e exibir.
Boa semana, gente heróica que chegou ao fim do post. A estucha do costume; fartinha de dizer: não percam tempo. Mas já que estão aí, se me permitem a sugestão – parvoíce, isto de dar conselhos –, aproveitem o sol e se puderem e quiserem, desfrutem da presença da família e amigos e sejam felizes.