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29/05/2022

A ler

Estará na História a origem das desigualdades entre países pobres e países ricos?


O livro "A Jornada da Humanidade", de Oded Galor, analisa a história do desenvolvimento económico, pondera as causas para diferenças entre países e projeta um futuro risonho. Mas com que fundamentos?, de José Carlos Fernandes, no Observador.



Embora a divergência entre países resulte da complexa interacção de múltiplos factores, cuja relevância relativa vai variando ao longo do tempo, por vezes é tentador identificar decisões ou eventos singulares que funcionam como ponto de viragem na história. Por exemplo, Alexandre Herculano atribuiu, em 1871, no discurso “Causas da decadência dos povos peninsulares”, o declínio de Portugal e Espanha a partir do século XVI aos éditos de 1492 (em Espanha) e 1496 (em Portugal) que determinaram a expulsão de “judeus e mouros, raças inteligentes, industriosas, a quem a indústria e o pensamento peninsulares tanto deveram”


Se nessa dupla expulsão houvesse que seleccionar um único exemplo para ilustrar como a decisão dos monarcas ibéricos representou um “tiro no pé”, dificilmente se encontraria alguém melhor do que o judeu Abraham Zacut (1452-1515), um dos expoentes da matemática e astronomia do seu tempo, nascido em Salamanca. Os contributos científicos de Zacut foram cruciais para colocar Portugal e Espanha na vanguarda da Europa – entre eles estão um novo tipo de astrolábio, especificamente concebido para medir a latitude em embarcações, e o Ha-hibbur ha-gadol (O Grande Livro), uma colecção de 65 tabelas astronómicas que constituiu um precioso auxílio à navegação em mar alto. O Ha-hibbur ha-gadol foi elaborado entre 1470 e 1478 e traduzido para espanhol em 1481 e para latim em 1496 (ano em que surgiu uma nova versão castelhana, o que atesta o interesse suscitado pela obra). A versão latina, com o título Tabulae tabularum celestium mottum sive Almanach perpetuum (Livro de tabelas dos movimentos celestes ou Almanaque Perpétuo), foi impressa em Leiria pelo judeu Samuel d’Ortas e foi traduzida para latim por José Vizinho, um judeu natural na Covilhã, que fora aluno de Zacut e se tornara médico e conselheiro de João II de Portugal. Foi na corte de João II que Zacut buscou refúgio após o édito de expulsão de 1492, mas o ano em que a sua obra foi publicada em Portugal foi também quando Manuel I promulgou o édito de expulsão dos judeus, o que fez com que Zacut acabasse os seus dias em Damasco.


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Galor não menciona a expulsão dos judeus da Península Ibérica, mas chama a atenção para outro evento singular, quase contemporâneo, que poderá ter contribuído para o início do declínio de outra super-potência: o Império Otomano. Enquanto na Europa a imprensa de tipos móveis desenvolvida por Gutenberg desencadeou, na segunda metade do século XV, uma verdadeira revolução na difusão e preservação do conhecimento, em 1485, “o sultão otomano publicou um edital a proibir a impressora de tipos móveis em escrita árabe, uma tentativa para aplacar os receios da influente elite religiosa de perder o monopólio sobre a disseminação dos conhecimentos da religião – e, em menor grau, dos escribas, que sofreriam com a concorrência”.