Estranhíssima sensação a do sonho de hoje. Uma rapariga de sete anos sentada ao toucador com pedra de mármore e alçado de espelho, e todo o resto do quarto decorado com mobília típica da primeira metade do século XX. Uma narradora dizia que a menina sensaborona vivia com a mulher adulta vaporosa que esperava o elevador de portas estofadas de verde garrafa. A miúda era sólida e chata como a Arte Nova e observava os movimentos da mulher adulta com quem vivia, não se sabendo quem tomava conta de quem, a quem competia o encargo de manter a realidade funcional. A sensação mais impactante era a da miúda não compreender aquela pose produzida num vestido demasiado bem passado e requebros artificiais a que chamam feminidade. Interpretei como sendo eu a criança e a adulta numa projecção de maturidade incompreensível. Ou seja, ideia muito básica: éramos duas numa: a adulta e a miúda. A narradora dizia que devia escrever. Pensei que o regresso à infância é uma ideia demasiado fácil, demasiado vista. Mas bem sei que tudo depende de como pegasse nela.
Noutra cena do mesmo sonho estava numa espécie de café e falava da lotaria com o José Cid – os meus sonhos têm sempre apontamentos hilariantes. Estava um pouco contida, apesar de certa ternura pelas músicas da figura não queria que compreendesse que o remetia para os anos 70 e 80 e dessa caixa de bafio não o tirava. Isto é, não o trouxe para o presente e acho deprimente muito do que faz nos últimos anos.
Por fim, numa paisagem verdejante dos Açores, mas com uma casinha típica da Madeira, uma tempestade desfeita. Muito vento, muita chuva forte e cortante na diagonal. Magotes de turistas protegiam-se numa estrutura gigante que mais não era senão um daqueles parques de diversão infantis com escorregões tubulares. Nesses tubos entravam longas filas indianas de turistas, feitos formigas, fugidos da tempestade. Um desses canos ia dar às portas dos parques de estacionamento dos Centros Comerciais. Andávamos à procura de acertar nas portas das lojas e do caminho para o carro.