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21/03/2022

Oráculos

Nos últimos dias fico a cismar sobre a tendência que temos para o vaticínio. Artigos e postais sobre a Ucrânia antevendo os meses que durará a guerra, as causas que levarão a que cesse, as consequências económicas para os ucranianos e russos, o destino de Putin e do mundo. O impacto na economia e no tecido empresarial português da entrada em cena dos refugiados como trabalhadores. Tudo é escalpelizado e as previsões mais do que muitas. Ainda não escapamos da pandemia, que continua por cá a fazer estragos e deu pano para mangas em profecias goradas de todo o género e feitio, sendo espantoso o grau de certeza das afirmações sobre o futuro: não há espaço para o tão provável imprevisto. Devíamos aprender qualquer coisa com a realidade e perceber que não temos o destino nas mãos, muito menos capacidade de adivinhação por mais preparados e entendidos nos consideremos na avaliação do presente e futuro. Dizer isto é chover no molhado para quem está habituado a cantar vitória cada vez que é feliz com uma projecção e a dissimular ou manipular as palavras sobre as muitas em que errou sucessivamente no alvo. Da minha parte há bem pouco tempo levei uma banhada. Não fujo. Também por isso estranho tanto a segurança com que as páginas de jornais, redes sociais e blogues se enchem de grandes tiradas sobre o futuro da Ucrânia, da Rússia, da Europa, de Portugal, do mundo.