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01/11/2020

Egoísmo

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Este clima de calamidade que paira nas palavras ditas, escritas e conversadas, pode fazer-nos procurar o lado menos sombrio da vida. Guinar para a saudável escapatória. Para desgraça chega a que há e é muita. Sem virar costas à realidade, lendo o que é preciso ler para estar a par das medidas restritivas da nossa liberdade, a ser impostas a partir de quarta-feira, convém manter a cabeça à tona e respirar. Até por a vida nos ter ensinado que sempre há e haverá o desporto lúdico da profecia da desgraça. Sabemos que se nos deixarmos envolver demasiado no ambiente de caça às bruxas, acabamos doentes. E os sábios profectas da desgraça continuarão impantes, agora, daqui a dez ou vinte anos, debitando as suas previsões, certezas e acusações, sem lhes sentirem o peso nem as consequências.


É bom estar atento. É bom ser crítico moderado, mas é razoável pedir que se reme para o mesmo lado quando a maré assim o impõe. Nos últimos meses muitos erros de governação e omissão de oposição foram cometidos. Talvez estejam agora a ser corrigidos. As incongruências das medidas restritivas da liberdade, que impediram os nossos mais velhos de ser visitados em casa mas, especialmente, nos lares onde a pandemia foi mais cruel, deixaram a nu o egoísmo de que somos feitos, sobretudo se tomarmos consciência de que quando fazemos estas críticas escamoteamos o facto dos nossos mais velhos terem sido abandonados à solidão muito antes da pandemia - e não, não é uma inevitabilidade, só nos tentamos convencer disso para nos justificarmos. As medidas contraditórias impediram os enlutados de acompanhar os entes queridos no último adeus e roubaram o tempo de os chorarem. E se pensarmos bem, será que soubemos antes da pandemia conversar com os nossos mortos, pedir-lhes conselhos, amparo e dar dignidade à sua lembrança? Ou estaríamos demasiado ocupados e sôfregos a consumir dias e noites vazias? As incongruências pediam que nos mantivéssemos longe das nossas famílias e amigos para os proteger. Até conseguimos perceber que a trágica pandemia imporia sacrifícios maiores, mas céus: como justificar que a par disto – pôr em causa o mais fundamental das nossas existências, que é o amor e respeito pelos nossos -, se abrissem excepções para comícios e festas políticas, para espectáculos de humoristas. E estômago suficiente para aberturas de jornal com imagens de hordas de gente enfurecida com um incêndio num canil a trazer em braços cães feridos. Ao mesmo tempo que havia gente a morrer desamparada em lares. Gente. Seres humanos! Enrugados e frágeis, entregues à morte em absoluta solidão. Os nossos pais, tios, avós, amigos. Gente. Quanto não daríamos para ver um dos nossos mais velhos carregado em braços por um filho indignado com o sofrimento do seu pai ou mãe. Talvez assim pudéssemos voltar a acreditar na humanidade.


No Verão a preocupação foi impôr regras nas praias aos veraneantes, uma franca minoria com direito a férias e praia. Mas não antecipar o aumento das camas nos hospitais e, concretamente, em cuidados intensivos com ventiladores, para a mais do que certa segunda vaga. Vem agora o Governo falar no aumento de duzentas camas até à Primavera. Perguntamo-nos como é possível não se terem preparado dois hospitais de campanha nas duas principais cidades do País e onde o colapso dos meios é previsível. Se não vier a ser preciso, ainda bem. Mas este arrojo, esta disposição para antecipar o pior dos cenários e fazer face às futuras necessidades essenciais nunca é tida em conta entre nós. Vamos sempre a reboque dos acontecimentos e contando com a sorte. E temos tido muita até agora, apesar de todos os pesares.


O Natal está próximo. Será que até lá aprendemos a viver esta tragédia com humanidade. Certamente com erros e enganos, na corda bamba entre o dever de não nos contagiarmos de modo descuidado e a obrigação de não descurar o que mais importa: quem mais precisa e os nossos. No tempo das redes sociais, será que sabemos sustentar as nossas redes de afecto, mantendo-as vivas? Mantendo a presença física ou não, mas presença. E hoje há tantas formas de estar presente. Não precisamos tanto de fazer grandes declarações que falam da falta de um abraço, se soubermos dar atenção a quem dela precisa e pedir atenção quando precisamos, usando para isso todos os meios que temos ao nosso alcance. O que é preciso é que não nos esqueçamos dos outros – como fizemos tantas e tantas vezes antes da pandemia e agora tendemos a esconder, ao culpá-la por todo o nosso egoísmo.