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07/11/2020

Xícaras & Canecas

Em novita tive a mania das mugs. Ao contrário de muitos, nunca aderi à repulsa pelas americanices, nem ao velho ódio cultivado pela intelectualidade e aristocracia europeia. Para além dos filmes, adorava histórias de índios e cowboys, tinha à minha disposição árvores e hectares suficientes para espraiar o gosto pelos jeans, chapéus de abas, espingardas, correrias e brincadeiras.


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Na casa dos vinte (isto assim soou a Luanda) quando tudo isso já parecia longínquo, sobravam os jeans e o gosto pelas grandes canecas de café. Não renego a América, sobretudo a da minha imaginação. Estou em paz com ela, mesmo quando me lembro da minha avó a referir-se, com todo o desapreço que uma senhora conservadora é capaz, à terra de vendedores de pentes de plástico (uma alusão enviesada à derrota dos franceses na Indochina). Talvez o mesmo desapreço que a minha trisavó, em viagem pela Europa, demonstrava pelas óperas (de Rossini?) a que assistia. A religiosidade não devia permitir que gostasse, presume a minha mãe ao almoço, quando nos vai relatando – ao longo das últimas semanas – a viagem que a minha trisavó fez com a irmã e os pais pela Europa fora. Hoje o relato incidiu sobre a visita ao The Crystal Palace em Londres e a ida a Ascot, em 1865. Por alguma coisa me perco no tempo, habituei-me desde criança a almoçar com a minha avó que contava histórias de família passadas há duzentos anos com a mesma naturalidade e graça com que narrava as passadas há dois dias. Agora é a vez da minha mãe me encantar. Uma delícia de diário relatado. Preciosidades. O objecto em si e a narrativa da bisneta, com muito traquejo em cortar caligrafias difíceis, pelos anos que se dedicou a fazer o levantamento demográfico da Póvoa do Varzim. Passei anos a ver a minha mãe casar pescadores fenecidos desde há quinhentos anos (e não, não é exagero). Nessa altura, limitava-me a dizer: a minha mãe lá anda, a casar mortos. E agora, ao ler o que escrevo, percebo o quão felizarda sou e o privilégio imenso que sinto ao entrar ali ao lado, no escritório do Nuno, e vê-lo conversar com minha mãe, que segura um livro sobre física quântica. Hoje entraram em perplexidade absoluta: dizem que não conseguiram perceber nada. Talvez seja verdade, porque notei no tom de voz de ambos a apreensão. O tempo e o espaço são descontínuos. Parece que o Quanta não se quer mostrar fácil. Descobriram hoje e partilharam comigo que o universo é uma espécie de granulado. Digamos que há partes de nada. Ocas de existência. Eles esforçam-se e preocupam-se em perceber e eu limito-me a ficar com pena de que metade do meu peso não seja feita desse nada que se aprende na física. À parte disso, a mim cumpre-me apenas a tarefa de ao longo do tempo ir comprando os livros que fazem parte do programa pós almoço de Sábado. Que me lembre as leituras passaram por contos de Huxley, astrofísica, contos portugueses reunidos em antologia, e agora física quântica. A última parada é alta. Acontece que os tenho por perto e, há dois anos, deu-me um gosto danado ver a minha mãe começar a interessar-se por física aos setenta e cinco. Estou tão consciente da minha ignorância, quanto certa de estar cercada e me cercar de pessoas absolutamente extraordinárias. Julgo que será a minha principal qualidade. Eles vão lendo, vão estudando, discutindo e rindo (é tão bom ouvi-los) e a mim compete apenas qual formiga ir à Bertrand ou à Feira do Livro trazer alimento para casa e qual formiga viver abrigada no Inverno.


Mais tarde comecei a emparelhar xícaras de café. Gostava de pares. Talvez tenha sido a fase casamenteira. Só se manifestou nas xícaras, graças a Deus. Tive juízo suficiente para não oficializar parelhas, para as quais sabia desde a adolescência não ter talento suficiente. O grande senão é ter estragado a longa tradição via feminina de casamentos muito tradicionais. Tresmalhei a longa tradição e ainda por cima pus fim à linhagem de Isabéis. Às vezes, sinto um pouco como se tivesse tirado uma lata de atum da base da pirâmide, e ela tivesse desabado toda em grande estrondo. Desculpem qualquer coisinha, foi sem querer. Tremenda falta de jeito, admito.


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E depois há ideias que me preocupam mais do que as americanices e as eleições na terra de vendedores de pentes de plástico, ou o universo feito de grãos. Por que carga de água as canecas de café desemparelham? A mania dos últimos dez anos são as canecas um pouco mais pequenas de café. Ora, compro sempre duas diferentes. Talvez em memória da minha avó, que ralhava quando a serviam em xícaras mal casadas, ou seja, com pires que não pertencessem àquela mesma xícara. Gosto delas de cores diferentes: um nadinha mal casadas. Mas elas teimam em piorar as coisas, e partem-se sempre que estão em par, deixando a outra viúva. O que me preocupa hoje é: por que carga de água quando compro duas canecas, ao fim de um ano ou dois, uma parte-se e a que fica viúva mantém-se eternamente? Esta sim parece uma lei da física que gostava que me explicassem. E notei isto sempre nas muitas casas que conheci desde criança: há sempre xícaras e canecas eternamente desemparelhadas.


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Entretanto é fim de tarde de Sábado, toca a campainha e o meu pai sobe com um saquinho de fotogénicas malaguetas – colhidas do vaso da varanda - e a boa disposição habitual. Piri-piri, o pique que faltava ao postal de hoje.


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