O presente texto é uma tentativa de materializar uma sensação dúplice pela qual foste assaltada algumas vezes na vida. À medida que os anos passam vais como qualquer ser humano acumulando experiência e bens. Uma e outros aprisionam-te ao mesmo tempo que trazem utilidade e prazer. Em momentos de maior sensibilidade e atenção para as questões da fragilidade da humanidade dás por ti a considerar o que possuis. Toda a carga de passado e os bens materiais e imateriais que foste acumulando impregnam a expressão do teu pensamento.
Recuas sempre à primeira vez que tomaste consciência dessa sensação. Estavas na casa dos vinte e deste por ti a pensar que tudo quanto tinhas cabia em dez metros quadrados e o que te era mais precioso papéis escritos depositados numa caixa de plástico que virias a destruir poucos anos depois com enorme alívio e nenhum arrependimento até ao presente.
A cada mudança de casa percebeste como é ambíguo o sentimento de deixar para trás um espaço que assistiu e contribuiu para momentos felizes e infelizes. Cada bem material ou imaterial deixado para trás representa uma memória registada no consciente ou inconsciente. A cada relação rompida compreendeste o mesmo. Tudo quanto vivemos e projectamos fica arquivado e aflora ainda que tenuemente no nosso pensamento voluntária ou involuntariamente.
A cada um dos vários discos de computador inutilizados em definitivo há mil e um apontamentos e registos que parecem perder-se e ainda assim persistem ao menos no inconsciente.
E quando te deparas com a perda percebes que ela não é tão difícil como suporias antes de ocorrer. Um fio invisível mantém-te presa ao essencial e quando tomas consciência dele compreendes a carga pesada que carregas - assim observas tantas vezes os móveis, os pratos, os livros, os lençóis, o recheio da casa, a memória da vida. Se no grosso dos dias não dás quase por eles e nalguns outros dias alegras-te com o sentimento de propriedade e fruição - ter uma casa, ter uma vida - outros há em que dás por ti a pensar que se te tirassem tudo isso continuarias a ser tu. Seria duro. Sofrerias, é certo. Mas seguirias mais leve. Uma e outra vez.
Até que ponto és livre? O apego ao passado, aos bens materiais e imateriais permitem que o sejas? Serão as frases precedentes delírios mimados de quem tem segurança na vida? Inconsequências e banalidades de quem não sabe o que são as reais grandes perdas? Patetices sem sentido?
A que propósito vem tudo isto? Não sabes bem, começaste a escrever depois do almoço e interrompeste o texto várias vezes, com momentos impactantes pelo meio, mas recordas-te do gatilho: o ataque digital há pouco mais de uma semana com origem no ponto previsível do mundo fez com que passasses a última semana a assistir e participar no difícil recomeçar, reconstruir, levantar de novo. São momentos que fazem perceber o quão resistente pode ser a vida e como o fio invisível - o essencial - está lá sempre até ao fim.
Estás por um fio.
E lá longe há quem esteja a viver a verdadeira dor, a lidar com as reais grandes perdas e quase tudo quanto disseste nas linhas anteriores parece perder importância e direito a existir.