É sempre irritante* a reacção dos cínicos a uma manifestação de desagrado face a algum erro ou injustiça grave e patente no que nos rodeia. Expressões como ‘sempre foi assim’, ‘qual a novidade?’, ‘é assim desde que o mundo é mundo’ (sei, também uso esta) servem apenas para quem as debita sentir-se mais contente consigo próprio e, em regra, cómoda e estrategicamente confortável nas suas certezas. A cumplicidade com a podridão deixa de ser pecha passando a sinal de inteligência para a vida.
A ideia é dar sempre preferência à esperteza presumida dos actores públicos e rodear-se de quem também o faz ainda que em sentido aparentemente divergente, dando respaldo e eco a esse fingido debate por saber que assim se garante o quinhão de conforto intelectual e material – a permanente mó de cima (expressão arcaica que tanto gosto).
Outra face é a crítica gratuita e a eito. Hoje a condenação sumária, amanhã o rasgado elogio, ambos desprovidos de qualquer sentimento de verdade, antes ancorados em rancores pessoais e clubismos que se apontam aos outros nunca reconhecendo os próprios. Tudo disfarçado na imagem de troca isenta de ideias - interessa dar o ar de pluralismo ou de respeito pela coexistência de diferentes pontos de vista.
Nada de válido e digno pode vingar neste caldo de intriga e feira de vaidades convertida na voz dominante no país, onde se confunde cinismo com sabedoria.
* A irritação é uma menoridade para os cínicos.