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05/02/2022

Diário

Perdi a conta aos diários que aqui abri. Há dias em que os faço sem medir ou pensar sequer na imagem que transmito, noutros como hoje pondero antes de começar a relatar o dia. Não por dizer algo de especial ou condenável. Sucede que à minha mente vem a imagem dos milhões de entradas anónimas que a todo o instante enchem as redes sociais - tudo é registado: o que pode ter interesse e sensaborias para os transeuntes. Que interesse terá o singelo dia-a-dia de um comum mortal? Salvo dar respaldo à pequena curiosidade alheia entre uma garfada no arroz, um esgar distraído da conversa que se interrompeu, um comentário desligado enquanto se vê uma série ou se dá um clique numa outra qualquer vida. Quantas vidas expostas directa ou indirectamente online. Quantas almas passam a miudezas quando perspectivadas por quem passa.


Há quem irredutível condene todo e qualquer relato pessoal considerando-o necessidade de exibição de gente rasca ou, pelo menos, pouco inteligente. Há muitos anos tive várias vezes essa discussão e sempre defendi que reduzir tudo a um tipo de montra - a de gente ordinária e fútil - é muito redutor e transforma, esse preconceito sim, o mundo num pouco recomendável espaço maniqueísta entre gente recatada e exibicionista. Entre gente educada e gente rasca. Se o visível - o exibido - for reduzido ao tal ordinário e fútil, que referências ficam para todos? Só o indesejável? Além de que quantos de nós têm a sensação de haver dois mundos ou planos a rolar em simultâneo? O mundo normal da família, dos amigos, dos colegas de trabalho que têm uma vida comum - vão ao supermercado, fazem a barba ou maquilham-se, têm discussões e fazem as pazes, pagam contas, partem uma peça de loiça ou o écran do smartphone, ouvem música, preocupam-se com a saúde dos pais, cuidam da alimentação ou rendimento escolar dos filhos, enganam-se no caminho, refilam com a injustiça e oportunismo alheio, riem de piadas parvas sobre si próprios, aspiram a casa ou passeiam o cão - e o mundo plástico de ensinamentos de modernidade defendido por poucos, baseados na ideia geral de normalização da bondade e da conveniência de todo o acto e discurso. Uma nova religião sem o pormenor da adoração pelo criador do mundo, todos os dias incrementada por um novo dogma com curto prazo de validade disseminado pelos donos dos megafones da comunidade, que forçam o pensamento da maioria em permanente lavagem cerebral - a lei do mais forte da actualidade. O critério para a validade de cada dogma passa tão só pela persuasão e pelo grau de adesão - pela facilidade com que a maioria adere ou compra a última ideia conveniente - e naturalmente pela rentabilização do dito. Quantos mais aderirem, mais visualizam e partilham - mais compram. E assim se comercializa o bem - a virtude. Cujo período de validade depende da performance do consumo - visualizações e partilhas - e do tempo que demora a chegar o enfado por mais uma verdade. Custa-me que se chame a isto Democracia.


Ui, onde já vou. Afinal ia apenas contar o dia e saiu a aparente mexerufada do costume. É bom que assim seja, é bom que o comezinho esteja no mesmo pé da reflexão, é sinal que não caí na pretensão.


Acordei muito cedo (ontem acabei por não me aguentar e deitei-me por volta das dez). Fui à Fábrica dos Óculos em Matosinhos. Experimentei cerca de vinte pares de óculos, desde os mais ao meu gosto aos redondos, aos grossos e pretos que jamais usaria, mas não resisti à curiosidade de me ver com eles. O bom de ir a estas lojas onde podemos estar à vontade a testar cada par de óculos sem terem de passar pela mão de um prestimoso funcionário - apesar de hoje ter sido atendida, depois de escolhida a armação, com todo o esmero -, é que estamos realmente à vontade e podemos escolher no nosso tempo e ritmo. Ia com ideia de comprar iguais aos que parti, mas não encontrei. Comprei uns do mesmo feitio, mas talvez de material mais frágil. Nesse aspecto não sei se foi muito boa ideia. Não tendo receita para hipermetropia por o oftalmologista considerar que vejo bem ao perto - ao contrário do que me respondem os rótulos dos invólucros -, encomendei apenas um par de óculos para a miopia e astagmatismo. A antigo e reiterado conselho do médico para o ano talvez faça a cirurgia de lente intraocular ao olho mau - já perdi a conta às dioptrias, mas é qualquer coisa entre 12 e 14 de miopia desde os dezoito anos. O olho a que chamo bom tem "apenas" 4.25. O facto é que não vai ser já - não tenho lata de apresentar duas baixas médicas no espaço de um ano.


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Depois entrei na Conforama e na Espaço Casa para cuscar novidades. Há muito não via uma mesa de jantar que me agradasse. Hoje vi uma, pena ter uma sala tão pequena. Aliás, pena não estar a mudar de casa, para ter o gosto de me perder em compras. Saí de ambas de mãos a abanar. O que valeu é que depois do almoço fiz o gosto ao prazer consumista e fui ao Chinês comprar um candeeiro cor-de-rosa de pinça para a secretária do meu cantinho - o azul transparente finou-se. Despendi a fortuna de 3.50 euros, tanto quanto pela lâmpada que trouxe do mesmo sítio.