Se a humanidade vivesse apenas de moderação, ainda não teríamos levantado as patas da frente.
Num país de passivos e de complacência com a corrupção, a endogamia e o atraso sistémico, combater as vozes críticas e os radicais, sob pretexto recorrente e ardiloso de estarem mal informados e serem permeáveis às falsidades das redes sociais, é areia atirada aos olhos dos incautos. E a cereja em cima do bolo é a moda de citar autores clássicos, não percebendo que a ironia dos trechos escolhidos satiriza não raro quem o cita e não, como julga, os que procura condenar.
A demarcação enfadada da combatividade por parte das elites intelectuais, na maioria das vezes, não é mais do que a defesa do status quo e dos interesses instalados. Os mesmos que à primeira vista defendem candidamente a moderação e o conhecimento exclusivo de selecto grupo de clarividentes estão a criar nos diversos quadrantes económicos, políticos e culturais as redes informativas e malhas de opinião interessada para assegurar a sobrevivência do privilégio, recorrendo dissimuladamente à táctica de guerrilha, que tanto criticam nos declarados radicais.
No fundo, os bem pensantes consideram um perigo colocar a Democracia nas mãos da população ignorante. É uma maçada: gente sem capacidades cognitivas, muito menos juízo crítico. Talvez fosse melhor voltar a reduzir o voto a um colégio eleitoral de iluminados e rever essa perniciosa mania da liberdade de expressão.
A Democracia não vai morrer pelo radicalismo, será suspensa por uns tempos por vontade dos moderados, com o nobre objectivo de civilizar a população.
Não sei onde já vi isto.