Vou escrevendo coisas banais sobre coisas banais, usando amiúde a palavra coisa. Como se não chegasse emitindo opiniões corriqueiras que não exigem o uso de mais de dois neurónios aos leitores. Dou por mim a reflectir nas razões: bom, escrita rica pressupõe vidas férteis, ao menos vida rica interior. Nesse momento, pego mentalmente na mochila e avanço pelo mundo fora até encontrar terras onde sinta espanto ou desconforto e desato a conversar com criaturas que desafiem as minhas verdadezitas imbecis. Submeto-me ao auto-polígrafo e constato que não fosse em pensamentos e ao fim de semanas ou meses já teria voltado à mesmice. Afinal, o amor ou bairrismo ao porto de abrigo, a insegurança e os medos funcionam como espécie de cordão umbilical que em esforço pode esticar 30 ou, muito excepcionalmente, 17 mil quilómetros, mas depressa recolhe à posição inicial. Invisto então na alma: revolvo as minhas entranhas dos pensamentos e das emoções. Remexo e também aqui funciona o elástico, mas agora da preguiça e do pudor. Dois lanços em frente, três passos para trás. Não há vida rica interior em cobardolas. Ou sim, ou sopas. A menos que queira dar o ar em vez de ser, e isso: nunca. Além de tudo, as gavetas da memória não albergam as leituras, as audições, as visões que compõem a riqueza do conhecimento.
Posto isto, parto de peito aberto para a leitura. Folheio dois livros, vou lendo vagarosamente um deles e pouso-o nem uma hora depois sem dar continuidade que a disponibilidade das férias imporia. Leio alguns postais de duas blogueres. A primeira escreve rica prosa poética - cria imagens belas de encher a alma. A segunda, lógica e racional, discorre ao longo de uma vintena de linhas muito reflectidas e certeiras, obrigando-me a reler várias vezes o texto até perceber.
Daqui não tiro outras conclusões que não sejam a do gosto pelo que li.
Talvez por isso quando me falam em degraus, progresso e sucesso, respondo que é preciso conhecer as próprias limitações e o nosso lugar. Regozijar com pequenos passos na melhoria da escrita, na esperança de ampliar o mundo. Há gente a pensar e a escrever muito bem. Tropeço nelas de vez em quando e, na maioria dos casos, não lhes vejo degraus nem sucessos, apenas beleza, graça e conhecimento.