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13/07/2021

Apontamento de Verão

Abranda o ritmo e há tempo para os detalhes: o contraste entre o cafezito à entrada da praia, num daqueles passadiços pejados de guarda-sóis e mesas simples e coloridas com publicidade à Olá, apoiadas pela barraquita de madeira de quádruplo-chapéu inclinado e o almoço na esplanada numa cabana bastante mais ampla e envidraçada, cem metros adiante.


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Na parede lateral da primeira barraquita uma fotografia composta de gosto duvidoso anuncia o nome do bar: Isabel Monteiro. Ao longo da frente mar outras iguais vão denunciando os proprietários pelo nome. A dona da máquina de café - além desta só tem duas arcas verticais, vidradas de modo que se vêem as bebidas, e a horizontal dos gelados – de t-shirt branca de motivos incógnitos e saia redonda castanha, avental de pano aos quadrados miúdos de cor parda e debruado a folho, bem atado à barriga. Rosto rústico e cabelo esbranquiçado preso por um gancho estreito de metal dourado. Quase tudo na figura podia ser encontrado há 40 anos numa qualquer aldeia portuguesa. Só a alva t-shirt de algodão dá um toque de modernidade. E quiçá a vista leste para os prédios torre que preenchem a marginal de A Ver-o-Mar e ensombram o areal pela manhã cedo. Imagino afastarem veraneantes mais ciosos do castiço e da preservação da orla marítima portuguesa – a mim parece haver espaço para tudo: para o tradicional e o contemporâneo. Além de mais, o gozo das varandas viradas para o Atlântico não abunda entre nós.


Os ventos da sofisticação logo se perdem no linguajar bem poveiro, bem directo, bem nortenho. Nada a ver com o tagarelar chique da vizinha Vila do Conde, onde passei parte das férias de Verão em miúda. De regresso à jovial e popular Póvoa do Varzim e à penúltima vez que cá passei uns dias: assisti à visita da vereadora do pelouro para tratar do cumprimento das regras da exploração e funcionamento da barraquita, mas também para ouvir as queixas da proprietária. Aí o choque entre a confortável e bem lançada idade já pousada na casa dos sessenta da dona do quádruplo telhado de madeira e a desenvoltura esmerada da enérgica doutora dos saltos finos enfiados nas ranhuras das estreitas tábuas do passadiço. Nada que a demovesse da convicção no exercício das funções: ouvia paciente, mas condescendente as reclamações apresentadas com deferência pela detentora da licença de exploração da pequena esplanada no areal e talvez do conjunto das barracas de pano listadas de azul e branco.


Hoje, poucos clientes. Mesmo poucos. Além de nós, duas senhoras que imagino de Braga. A Póvoa ainda é muito a praia de Braga e das redondezas. Concorrem com os franceses que, salvo estes tempos pandémicos, acorrem em grupo a estas bandas e a Esposende. Em 2016 fomos parabenizados em plena rua, face aos gritos de golo vindos das varandas, por um simpático e calculista casal de franceses, que connosco se cruzou nas meias-finais. Nós ganhámos ao País-de-Gales, eles viriam a ganhar à Alemanha. Julgo que o cumprimento feliz se traduzia na ideia de que afastando os alemães connosco seriam favas contadas. Correu-lhes mal a vida. Bom, mas o facto é que os turistas franceses são, em regra, mais afáveis e respeitadores dos autóctones do que os ingleses, sempre mais presunçosos. Digo eu que,  apesar de tudo e nestas matérias, sempre tive mais inclinação para bifes do que para baguetes.


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Na segunda cabana envidraçada – o Booggie, que já vou conhecendo, um pequeno bando de raparigas novas de calções e t-shirts brancas e turquesa onde está inscrito o nome da casa. Lestas, mais ou menos amáveis conforme a natureza e o correr do dia.  Uma brasileira mais solícita, de sorriso exuberante ajudou-nos a decidir a ementa falada à boa moda portuguesa e no final fez-nos a conta. Já poucos resquícios do passado nesta esplanada mais aprumada onde sempre vi gente a estudar – creio que é timbre da Póvoa. Talvez a nota divergente seja o cliente de trunfa e barba cor de algodão que lê o jornal aberto sobre a mesa – se os outros os liam, seria nas versões online, atentos os pescoços curvados sobre o gingarelho (o dicionário discorda, mas levo a minha avante). Não chego a perceber se é o dono, tal a familiaridade da conversa com as funcionárias. Creio que sim, dado o diálogo versar a falta de stocks na casa. E também ao constante vaivém de companhias de treta que à vez se vão sentando à sua mesa.


O elemento mais inovador é a ementa por código QR. Lá vem a menina com o cartãozito ao qual os clientes apontam os gingarelhos antes de se voltarem a debruçar sobre eles, agora não para disparar a quadragésima mensagem instantânea numa rede social, mas para escolher o prego no pão, o cachorro ou a salada de salmão.


 


A mim, que já levo vasta experiência no uso do código QR, continua a parecer coisa futurista. Sinais dos tempos. Faz sentido: afinal Richard Branson – empresário e milionário aventureiro britânico com quem sempre simpatizei, mais ainda depois de experimentar a já extinta Virgin Atlantic no outro lado do mundo – fez ontem a primeira viagem ao espaço – uns minutos no avião-foguete VSS Unity, da sua Virgin Galactic e declarou: «Sonhei com este momento desde criança mas, honestamente, não há nada que nos prepare para a visão da Terra a partir do espaço.»


Ah, eu também ia. Oh, se ia.