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02/10/2023

Diário

Hoje acordei tarde depois de três ou quatro dias de sonos trocados. Ando a habilitar-me.


Pela primeira vez na vida peguei num papel para escrever o que vou pôr nas malas de viagem. Liguei à minha mãe a contar este feito épico. Sei que a deve deixar orgulhosa, afinal sempre a vi fazer coisas destas com todo o método e disciplina. Nunca me achei capaz disto, todavia a verdade é que com a idade começamos a parecer-nos mais com as nossas mães (e pais). Como este fim-de-semana pus a lavar parte da roupa e ainda vai ser passada pela dona L., quis certificar-me que não deixava a decisão sobre o que levar para a véspera como era costume. Após tomar nota do que enfiar na mala, vi uma página de meteorologia para saber o que nos espera naquelas bandas onde acaba a Europa e começa a Ásia, junto ao Médio Oriente, abri o Google maps para dar uma vista de olhos pela Turquia estendida entre o Mar Negro e Mediterrâneo. Num dos próximos dias passarei por minutos os olhos pelo mapa de Istambul, do Estreito do Bósforo e Mar de Marmára, e por Ancara e Capadócia. Li o plano de viagem para ter uma noção do que nos espera - com muitas horas em autocarro posso contar - e das escolhas que deveremos fazer. Li uma publicação online sobre a história da literatura turca. Num dos próximos dias lerei a entrada da Wikipédia sobre a Turquia. Amanhã ou terça-feira comprarei um livro de Orhan Pamuk. Não o Cevdet Bei e os Seus Filhos, que me foi relatado à medida que ia sendo lido há um par de anos (esperarei pela reforma para ter disponibilidade para leituras dessa envergadura), mas O Romancista Ingénuo e o Sentimental, mais maneirinho em número de páginas. 


À tarde fui à Abreu do Arrábida Shopping levantar a documentação da viagem, onde decorreu conversa amigável do Nuno com as meninas, uma delas curiosa (já que a mãe está em processo de perda da visão) sobre algumas particularidades da cegueira, nomeadamente, acerca do que vêem os cegos: manchas de cores escuras flutuantes, costuma responder o Nuno, que hoje se alongou e contou que a visão dos sonhos ao acordar de manhã se prolonga um pouco no tempo como se visse. Já havia falado com esta funcionária da Agência de Viagens de brio invulgar na profissão e particularmente interessada em que eu descreva ao Nuno o máximo possível do que verei. Aproveitei para comprar um par de sapatilhas, uma mini mochila e queijo e nozes para a salada do jantar. No regresso passei em casa da minha mãe para ir buscar uma mala tamanho cabine (a usual do Nuno ultrapassa em um centímetro a regra e escuso de me enervar mais uma vez com a hipótese de vir a ser chamada a atenção) e duas écharpes bonitas para poder entrar nas mesquitas - tenho as minhas, mas gosto de cobiçar e usar emprestadas as da minha mãe. Tive a boa surpresa de ter uma caixa de roupa antiga minha ainda na casa materna, pelo que passei um bom pedaço a enfiar-me num fato, um conjunto mais festivo, camisolas e casacos vários, e uns jeans largueirões como há muito não uso, tudo a servir-me. Resultado: trouxe algumas peças, mais tarde trarei as restantes. Foi como ir a uma loja sem pagar. Com a sensação boa de ser tudo meu comprado com os salários de trabalho da meia dúzia de anos que antecederam o fatídico de 2007 e ainda existir em estado muito aceitável. Não terei necessidade alguma de comprar roupa este Outono/Inverno.


Ontem foi aniversário do meu irmão T., que o foi festejar para o Gerês, e tive cá em casa os meus pais. O N. e a S. andavam por terras alentejanas com os cães. O F. refrescava-se em casa com o cão. Hoje falou-me uma tia, mãe do M, com quem estive hora e meia ao telefone no fim-de-semana passado. Vou trocando algumas mensagens no WhatsApp. Poucas. Ainda hoje comentava mais uma vez que não consigo perceber como é possível sobreviver ao mundo das trocas de mensagens em catadupa. 


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Hoje jantei cedo. Pão, presunto e salada de tomate, queijo, azeitonas e nozes - não há o que lhe fazer, quando se gosta, estabelecem-se rotinas de paladar -, o Nuno comeu pão com torresmos e chouriço de porco preto vindos do Alentejo - não sou fã de nenhum dos dois - e a mesma salada. Acompanhámos como habitualmente com de água da torneira e maduro tinto Ermelinda Freitas da torneira do pacote - heresia própria de gente parola, não há o que lhe fazer. Gente fina janta tarde e acepipes mais elaborados e faz questão de marcar a diferença - lembro-me vagamente desses tempos e de não compreender nada da vida.


Estive ao telefone com um meu sobrinho e afilhado duas horas e meia. Falámos acerca da vida caseira e profissional, amigos, família, cinema e viagens, idiossincrasias e que tais. Pusemos a conversa em dia para uma temporada. A meio do telefonema a propósito de qualquer coisa disse-lhe: ah, é verdade, casei-me. Ele riu muito e disse que era uma forma engraçada de saber. Expliquei que não lhe tinha dito nada a ele e à irmã porque achei que o pai deles contaria. Enfim, também porque me esqueci. Sem qualquer problema, sei que ele compreende. 


Parti e descasquei uma maçã para comer a meias com o Nuno. Costuma ser ele a fazer estes mimos. Foi dormir. Vim escrever este postal e agora vou-me juntar a ele. Entretanto o blogue continua privado, o que me traz paz (catrapuz). O Ritz começou agora a rilhar o ração, deu-lhe uma fomita nocturna. Assim mais a contar só que ao fim destes anos decidi pôr mais fotografias na sala: vou pôr a nossa do almoço com as três testemunhas de casamento, a do Nuno em adolescente junto à parede do court de ténis de Guarapari, em que está lindo e zangado por a mãe o ter obrigado a pintar o muro com flores (fica muito bonito irritado) e da minha enteada que ela própria deu ao pai com duas fotografias penduradas numa cordinha: uma de estudante, outra de enfermeira. 


E foi assim, o fim-de-semana.