O segundo dia.
No Domingo, no intuito de conhecer um pouco a área de Taksim, o lado moderno de Istambul, fizemos um primeiro ponto de paragem para avistar o lendário Pera Palace Hotel, perfeito cenário de cinema construído no final do século XIX no propósito de receber passageiros do Expresso do Oriente. A segunda paragem foi a Igreja de Santo António, que não visitámos. De manhã cedo ainda ao abrir do comércio passeámos pela avenida pedonal de Istiklal, sendo informados que ali fervilha vida nocturna. Na companhia da I., uma senhora brasileira viúva de 78 anos, residente no Grande Porto, que havíamos encontrado à saída no aeroporto Francisco Sá Carneiro, tomámos o primeiro café expresso na Turquia, por nós oferecido com gosto. Veio servido em bandeja prateada, acompanhado de um torrão de açúcar e copo de água. Bom e elegante.
Seguimos para o Mercado das Especiarias, um dos mais antigos bazares da cidade, mais turco, mais típico, pelo que nos disse o guia do dia anterior, com o característico cheiro a café e especiarias. Desta vez a única e pequena compra foi feita do lado de fora, em frente à parede lateral da Mesquita Yeni Cami: uma carteirinha de sementes que escolhi pela beleza do colorido do invólucro e cujo rótulo em turco diz, vejo neste momento em que escrevo: “Unutuma beni çiçtek tohuma”. Na tradução google: “não se esqueça de mim, semente de flor”. Marca: "Sveryverts", muito verde. Sobre traduções google recordarei mais adiante um episódio bonito da última noite na deslocação para o aeroporto.
Pouco depois estávamos a bordo do barco que nos levou pelo Bósforo, desfrutando da vista sobre as margens europeias e asiáticas, já que este estreito de ligação ao Mar Negro separa a Europa da Ásia. Na retina ficaram a amplitude e o azul forte das águas, as ricas casas de madeira ou betão, a fortaleza, os palácios e mesquitas das margens e os três ou quatro navios de guerra, os cargueiros e as muitas embarcações de recreio que por ali navegavam. Almoçámos perto do ancoradouro num castiço restaurante um horrível robalo sem sal, acompanhado de batata por cozer. Valeram as entradas (molho de iogurte com ervas, anchovas, hummus etc.), que em toda a viagem foram sempre saborosíssimas, e a companhia da sénior I., das compinchas de meia-idade A.M. e S. de Lisboa, e do jovem casal F. e M., nascidos em Viseu.
Seguimos viagem de mais de cinco horas de autocarro para Ancara. A vista da janela sempre generosa, sempre ampla, e ainda verdejante - brinquei com o Nuno dizendo que ainda não tínhamos chegado ao Alentejo, íamos em Leiria. Dormi cerca de meia hora e passei parte substancial das seguintes a conversar com a S., que soube ser formada em Direito na Católica de Lisboa e tal como eu desligada das leis. Contou-me muito (e eu a ela): o gosto pelo curso de fotografia que está a fazer e pelas aulas de português que dá a estrangeiros. Chegados a Ancara o jantar foi no hotel e o melhor a belíssima sobremesa. Toda a refeição – boa, como quase todas na estadia na Turquia - foi acompanhada de uma pianista, cuja actuação não gostei. Piano com ruído de pratos, talheres e conversa não me agrada, além de mais o que estava a tocar não era de todo do meu apreço. O Nuno pelo contrário apreciou. Procurámos jantar sempre em mesa de dois para podermos gozar de alguma intimidade, já que almoçávamos e passávamos o dia inteiro em grupo.
(continua)