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07/03/2025

Eficiência, segurança e absurdo

Hoje para lá das tarefas normais parte substancial do dia foi passada em torno da segurança da informação. Consegui estar focada três horas, o que para um cérebro macerado é obra. Fiz mentalização antes: vais escutar, vais focar no que é dito e a participação saiu natural. A ideia era não partir com ideias preconcebidas e ouvir o que era dito.


Foi útil, mas como sempre nos últimos anos acabo por chegar à conclusão que tudo parece fazer sentido parcelarmente, contudo um vôo de pássaro que nos dê um panorama global da realidade mostra o absurdo para que caminhamos. Falo de eficiência e segurança. Trabalhar a informação mantendo-a íntegra, organizada e segura, tomando cada vez um maior número de procedimentos para o efeito parecerá a via desejável. Sucede que o futuro demonstrará que é contraproducente. Enquanto decorria a exposição estive atenta aos procedimentos e à lógica e benefício de cada um per si e tudo parecia fazer sentido. Sucede quando paramos para respirar, sair fora do negócio, do quadro mental, da lógica imediata e começamos a avaliar o trabalho implicado, percebemos que é totalmente irracional - a menos que esteja em causa a ironia imperceptível aos que insistem em profetizar o desemprego massivo da população mundial, que se consubstancia na necessidade cada vez maior de mão de obra à conta do absurdo. A incomensurabilidade de trabalho acrescido é a razão para pensar tantas vezes que argumentos parcelares lógicos e racionais podem perder toda a razoabilidade quando vistos numa perspectiva distante e (quase) integral – e não estou a falar de falácia, distorção da informação ou de má intenção, o assunto é outro.


Em suma, o instinto parece não me ter enganado quando no passado escrevi sobre o absurdo do trabalho das consultoras internacionais que destroem os tecidos empresariais dos países por onde passam, nem me engano quando digo que o incremento exponencial da informação e dos procedimentos levará a exaustão da actividade cerebral humana. É o que chamo despejar o mar a balde. Dir-me-ão que a robotização resolverá. Não me parece: alguém tem que criar, compreender, operar e fazer a manutenção das máquinas.


A sofisticação dos impérios tem consequências. A sofisticação das civilizações antigas teve o reverso. Teremos também o nosso e será tão só a forma do Universo se ajustar para sobreviver. O planeta não comporta a humanidade na dimensão e moldes actuais. Da natureza decorrerão os enormes e terríveis estragos por mais que lutemos contra a inevitabilidade - é natural e humano que o façamos, menos racional e aceitável é arranjar culpados em cada esquina, o que sempre acontece nestas épocas.


Na passadeira ouvi a conversa ao telemóvel de uma jurista: comentava que a jurisprudência determina que nestes casos se decida de determinada forma, recuei 20 anos e soou-me a um mundo antigo que não sobreviverá aos mais de duzentos caixotes de resmas de documentos do processo de Ricardo Salgado, ao conteúdo dos ficheiros constantes dos discos rígidos cujas passwords Rui Pinto entregou à Polícia Judiciária, aos “leaks” que o consórcio de jornalistas vai libertando conforme as conveniências ou a outros casos que surjam.


Deixei a agenda que fiz de manhã em branco. Não tive tempo. Bom, podia ter usado o tempo gasto para escrever este postal, mas não aconteceu assim.


 


Publicado aqui nas Comezinhas a 28 de Janeiro de 2021