Registo a boa sensação de pousio com que transcorrem os últimos dias. É bom assinalar para que não se sobreponha o testemunho dos alvoroços. De que são feitos estes picos de tensão mental e emocional? Da necessidade premente de que aconteça qualquer coisa. Da avidez de movimento e interacção. Como se a vida não se satisfizesse com momentos de passividade adequadas a receber e aceitar. A ânsia pelos acontecidos em que o cérebro se vicia no galope dos dias informativos e interagidos.
Todavia, com a graça do Universo, os dias poisaram na tranquilidade desejada. Ajuda a que abrandem os quiproquós domésticos como a descoberta dos atalhos dos narradores de ecrã do computador ou a instalação de novos programas de comunicação digital com lacunas na acessibilidade para quem não vê.
As noites costumeiras que principiam na confecção do jantar, passam pelo telejornal, a conversa, as bulhas muito mais brandas do que as bravas da hora do almoço e o riso a dois, um telefonema ou outro rápido, as brincadeiras e mimalhice com o gato, as leituras bivalentes, agora para dentro o surrealismo e o realismo fantástico e em voz alta a história das civilizações. Tudo intervalado, haja franqueza, com o constante espreitar do telemóvel em busca do tal galope viciante do intercâmbio de comunicação.
Ainda assim agora prevalece a serenidade que decorre também ou é causa, não sei bem, da visão ampla dos séculos, aliás, milénios decorridos. Se num parágrafo de um período para outro podem passar quatrocentos anos com evidente ligeireza de abordagem e conhecimento daí resultante, a verdade é que alegra a paz trazida pela feliz e quiçá ingénua ideia de saber o fio condutor da história dos factos, matéria e ideias. Parar, desenjoar da minudência de cada época, de cada enredo histórico e procurar os desafogados planos gerais. É do que são feitas parte das leituras dos últimos anos. Uma mania recorrente ao longo da vida que não prejudica o acumular de camadas de episódios e detalhes que ficam na mioleira. O progresso estará, se for feliz, em conseguir situar os ditos eventos e pormenores no grande novelo da evolução do mundo. Fazer paralelos com os dias correntes e tirar conclusões já é uma pretensão descomedida para quem tem consciência de saber pouco.