Ora vamos ao diário deste fim-de-semana começando por um aliciante post que li aqui no Medium sob o título «Um guia para iniciantes em História da Arte». Já sabem. Está na Reading List disponível para leitura de quem quiser. Nada mais adequado para quem há anos devaneia fazer um curso ou mestrado em História da Arte. Se querem saber, vou-me satisfazendo com este tipo de leituras dos últimos meses e o mais provável é que não me inscreva em mestrado algum. O destino escreve certo por linhas tortas. Vou chegando ao que gosto e me dá prazer por linhas travessas. Há quem, quer saiba ou não, queira ensinar e há quem passe a vida inteira como aprendiz. Mas o que nos conta o autor da história desta semana? De quem já li bastantes entradas e ganho sempre em conhecimento, isto é, aprendo. Diz que quando iniciou o estudo da expressão artística ao longo do tempo e das culturas teve necessidade de fazer uma linha do tempo. Isto é, o fio condutor que ainda há um par de dias mencionei para a História em termos gerais (coincidências por afinidade). A tal necessidade do panorama geral para mais tarde poder situar pintores e obras. Encadeados no tempo numa sucessão de causa-efeito. Vou copiar a lista dos movimentos artísticos indicados pelo autor do post, como se estivesse a estudar — e afinal não é disto que trata parte substancial do que escrevo nas Comezinhas e no Medium? «Arte medieval>Renascimento(1300–1600)>Barroco(1600–1730)>Rococó(1720–1780)>Neoclassicismo(1750–1830)>Romantismo(1780–1880)>Impressionismo(1860–1890)>Pós-impressionismo(1886–1905)>Expressionismo(1905–1930)>Cubismo(1907–1914)>Futurismo(1910–1930)>Art Déco(1909–1939)>Expressionismo abstrato(década de 1940)>Arte contemporânea(1946-presente)». Em seguida enfatiza o ponto em que cada um começa na História da Arte, uma espécie de marco no estudo, dando o seu exemplo com Kandinsky, pintor russo que viveu parte importante da sua vida na Alemanha e de que ouviu falar aos 16 anos pela primeira vez a um professor. Situa-o no Expressionismo e conta como os expressionistas usavam as formas distorcidas e as cores intensas para despertar emoções profundas. Fazendo o exercício para o meu caso, o despertar viria com Van Gogh que conheci aos 14 anos pela mão da professora de Arte e Design do liceu, como contei nas Comezinhas no postal Compromissos, de 2 de Fevereiro de 2020. Situá-lo-ia no pós-impressionismo e destacaria a tela Campo de Trigo com Corvos. Em seguida o autor enumera perguntas pertinentes que curiosamente diz fugirem aos rótulos. Assim à trouxe-mouxe, resumo: quem o influenciou?, qual a tradição?, que materiais dispunha à época?, qual a sua história de vida?, como foi recebido pela crítica? etc. Isto é, os catálogos habituais de que é feito o estudo. Afinal não conseguimos fugir aos rótulos. Por fim, recorda que a História é interpretação para lá do conjunto de factos, evocando o exemplo do relevo dado pela História à arte italiana no Renascimento por nos chegar pela narrativa construída por Giorgio Vasari, pintor e arquitecto do século XVI. Gostei da abordagem, simples e clara.
Agora competiria fazer o relato do dia-a-dia. Mas esta semana consumi o tema nos postais das Comezinhas: Domingo revisitado, Pormenores e séculos, Os últimos dias em imagens triviais e Ponto de situação. Que faltará ainda dizer? Anunciar a Primavera e o Dia da Poesia publicando flores e versos? Não. Talvez confidencie apenas que este ano a Primavera começou no momento em que a meio desta semana, no trajecto de regresso ao trabalho à hora de almoço, no Jardim da Rotunda da Boavista, vi dois pares de pombas na condição usual nesta época do ano: a de amantes. Afastados dos bandos, lá seguia dengosa a pomba fêmea que se fazia difícil e o pombo macho que a perseguia vestido de porte um pouco maior e movendo expedito o pescoço empertigado como se indicasse o caminho. Hão-de parar nalgum momento feliz e aninhados dar bicadinhas ternas como se não houvesse mundo no seu entorno. E vão passando os namoros de época, os anos e as décadas. Até chegarmos à idade destas cenas nos fazerem parar e sorrir.
De resto quanto a planos também estamos quase conversados com os lamirés que fui dando. Encontro-me na situação muito habitual de querer mudar. Tenho impressão que ando a aborrecer-me comigo própria e isso não pode acontecer sem que enfrente as causas e mude. Nada a ver com a realidade familiar e profissional que decorre com tranquilidade. Antes com a escrita, a troca de informação e comunicação. Volto à tecla de sempre. Terei de reunir temas do mundo fora do umbigo sobre o que escrever para não cair no tédio da mesmice. Mas também modificar a forma de abordar a realidade e aí talvez esteja o busílis. Serei capaz? Viciámo-nos nos caprichos de apreciação e crítica e a coisa cola-se aos dedos e parece não querer desgrudar. Fico sempre espantada com quem consegue vestir várias personagens como autor. Em suma: aumentar o leque dos assuntos a abordar e tentar fugir dos julgamentos costumeiros. Procurar alimento nos jornais, portais online, blogs, livros, televisão etc. Sem referências para não me armar em esperta. E sem cair no círculo dependente e asfixiante das recomendações oportunistas e dos entediantes elogios a todos os espaços ou fenómenos com sinais exteriores de sucesso muito comuns no espaço público. Talvez sorteando um ou dois tópicos aleatórios por semana para não incidir naquilo que me inspira de imediato vontade de um bitaite. E policiar-me quanto aos vícios, ao contrário do que mandam os génios da literatura que ordenam liberdade total. Creio que se seguisse o conselho, continuaria ad aeternum sem evoluir encalhando no criticismo habitual. Enfim, introduzir mudanças como já fui fazendo várias vezes ao longo dos últimos anos das Comezinhas, à época criando tópicos como Moralidades à quinta-feira, [Uma palavra solta] O que é esta segunda-feira?, como este Diário de fim-de-semana, ou Chá e conversas e Curiosidades soltas. Ideias foram muitas, mas tudo passa e fica no esquecimento. Vale enquanto dura, como a vida.
Antes destas alterações convinha situar-me na actualidade para conseguir escrever acerca dela. Na semana passada tinha esse propósito, mas percebi que não estava com as ideias assentes e como para escrever por escrever, como se fosse falar a metro ao estilo dos milhentos comentadores com que nos deparamos todos os dias ou em alternativa criticar as opiniões de antolhos ou de matilha de interesses, mais vale estar quieta, optei pelo silêncio e assim me vou manter até considerar ter alguma coisa de útil a dizer (ou, quem sabe, até perder o bom senso).

Por fim, deixo uma nota por ter sido avisada pelo meu telemóvel: faz um ano que percorri Porto-Pocinho em comboio, deliciando-me com a magnífica imagem das margens do Douro, e me instalei na bela paisagem de Vila Nova de Foz Côa. Passeio descrito nestes quatro postais: Passeio de fim-de-semana ao Alto Douro I, Passeio de fim-de-semana ao Alto Douro II, Passeio de fim-de-semana ao Alto Douro III, e Passeio de fim-de-semana ao Alto Douro IV. Hei-de passar estas entradas para a List Travel do Medium.
Obrigada por terem lido. Bom fim-de-semana.