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30/03/2025

Diário 30 de Março de 2025

Regresso a Botticelli desta vez a propósito da tela O Nascimento de Vénus. Como habitual o que escrevo acerca de pintura nestes diários decorre de leituras de histórias aqui do Medium, que afixo na Reading List. Tão só exercícios de leitura e escrita nos quais apelo também à memória do que absorvi e experimentei sobre temas que me interessam. Não tenho a pretensão de passar a imagem de saber mais do que sei e apesar da maioria achar desnecessários estes apartes, continuo a considerá-los fundamentais para marcar a diferença. A obra, ensina o autor do post, celebra o Renascimento Florentino e presta homenagem à musa do pintor, Simonetta Vespucci, considerada a mulher mais bela da sua época, morta precocemente e vista pelo artista como modelo de virtude e beleza. O autor recorda as duas versões clássicas do nascimento da deusa, a grega de Hesíodo, ligada ao amor idealizado, na qual Afrodite nasce da espuma do mar, após a castração do pai Úrano, e a versão romana de Homero, resultado de amor físico e terreno, na qual Vénus, deusa maternal, é filha de Júpiter e Dione. A Academia Platónica de Florença procurava conciliar a cultura humanista antiga com a religião cristã, vendo Vénus como dupla encarnação do amor: o amor apaixonado dos instintos e o platónico ou divino, o que leva ao paralelo com a figura bíblica de Maria Madalena. Botticelli materializa ideia da deusa trazida por Zéfiro (vento de Oeste) na concha de vieira.


E o fim-de-semana como correu? Hoje faz anos o meu mano mais velho, a gozar as belezas e amenidades de Castelo de Vide. Por cá está um dia caseiro com banho tomado e de regresso ao pijama, apesar do magnífico sol lá fora. Ontem pude aproveitar o brilho natural da Primavera. A jornada começou cedo como é costume aos sábados para ter a casa arranjada e receber o M. e a H. Lá decorreu a lição de piano do Nuno e senti que mesmo sem ritmos ligados já começa a sair melodia dos dedos do pequeno, o que considero uma proeza ao fim de menos de cinco meses. Foi proposta uma música nova ao M., respondeu: outra? No fim ao ir-se embora virou-se para trás e despediu-se: adeus, professor. Detalhes. Durante a lição saí para fazer as últimas compras para o jantar. Logo depois fomos a pé visitar uma casa, a apanhar sol quente de fim de Março. E mais não digo. A ver se tenho juízo. Almoçámos e chegou a minha mãe cheia de acepipes trazidos do Mercadona para precaver o meu Domingo sossegado sem mexer uma palha. Quem tem mãe tem tudo. Foi e veio a pé. Aos 81 anos continua com uma genica imparável. Leu ao Nuno e dormi, como tem sido habitual. Acordei a tempo de preparar a mesa e o jantar para o amigo R. Nada de muito especial, mas tento sempre que não fique mau e esteja com apresentação bonita.


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O jantar em si - leia-se: o mais importante, a conversa -, correu às mil maravilhas. O Nuno e o R. entenderam-se numa boa-disposição educada, inteligente e sã que alegra qualquer sala. Vieram à baila memórias engraçadas do percurso de cada um, da tropa por onde ambos passaram, de episódios profissionais, de livros, da responsabilidade acrescida dos políticos, de visões acerca de como se está no mundo hoje em dia seja a consumir, contrair crédito ou opinar nas redes sociais e os contrastes da exigência, disciplina e critério com a displicência, o facilitismo e a vacuidade. Cada um falou de si e houve tempo e espaço para todos. Por isso gosto tanto de repastos com poucos comensais. E espero que na próxima a M., mulher do R., se possa juntar a nós. Começando pelo início, o R. chegou de Pai Natal, carregado de presentes para nós. E eu regalada, claro. Porém, admito, um nada sem jeito. Além do vinho e de doces para a sobremesa, trouxe latas de comida especial para o Ritz, uma caneca com formato engraçado por se lembrar que gosto, e o presente dos 50 anos, o livro Os Sete Pilares da Sabedoria, de T.E. Lawrence, da E-Primatur — a autobiografia romanceada de Lawrence da Arábia. Uma preciosidade cuja edição lhe diz muito. Mais adiante irei lê-lo em voz alta ao Nuno. Durante meses, já se sabe. A leitura a dois vai enriquecer-me mais do que se lesse apenas para mim. Isto dos amigos me terem em boa conta de leitora, e não acreditarem que sem intenção indromino lendo menos do que aparento, dá neste resultado. Interesseira, escolhi um presente adequado para um poeta, demos-lhe uma caneta Cross para assinalar os 48 anos feitos em Novembro. Digo calculista por estar certa que a esferográfica não pode estar em melhores mãos e será bem aproveitada; fico à espera dos versos, dos adágios, da ironia precisa e elegante de quem tem uma sensibilidade e talento especial na escrita. No entretanto já ganhei uma noite que se estendeu até às quase duas da manhã (hora antiga) de boa conversa. Coisas que genuinamente aprecio. Além de mais, o Ritz tem um novo amigo de que se aproximou e brincou quase sem cerimónias.


Isto teria ficado muito mais comprido se tivesse falado da visita à casa. Mas esta semana será diferente.