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12/06/2020

Bárbaros

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Aos iluminados que andam entretidos a pintar e estragar estátuas dos 'bárbaros', incluindo a de Padre António Vieira, deixo o Sermão de Santo António aos Peixes.  É só um começo de entretenimento para verem a borrada que andam a fazer. Bem sei que ir a manifs tira muito tempo útil para a leitura, mas neste caso está acessível nos vossos smartphones. E é de fácil leitura e compreensão. Não custa nada experimentar.


Depois, sabendo-os tão instruídos e com tanta vontade de dar lições ao mundo, aconselho mais estes Sermões.


E, imaginem, até faço uma selecção.


*


SERMÃO DA TERCEIRA
DOMINGA DA QUARESMA
NA CAPELA REAL. ANO 1655


«Ubi? Onde? Escrúpulo dos que assinalam o onde e dos que o
aceitam. Onde põe Portugal seus ministros da fé e dos estados.
Quanto mais longe, tanto hão de ser os sujeitos de maior confiança.
A parábola dos talentos e a honestidade dos criados nas regiões
longínquas. O profeta Habacuc e o escrúpulo dos escolhidos.



Ubi? Onde? Esta circunstância: onde, tem muito que reparar em
toda a parte, mas no Reino de Portugal muito mais, porque ainda
que os seus ubis, ou os seus ondes, dentro em si podem
compreender-se facilmente, os que tem fora de si, são os mais
diversos, os mais distantes e os mais dilatados de todas as
monarquias do mundo. Tantos remos, tantas nações, tantas
províncias, tantas cidades, tantas fortalezas, tantas igrejas catedrais,
tantas particulares na África, na Ásia, na América, onde põe
Portugal vice-reis, onde põe governadores, onde põe generais, onde
põe capitães, onde põe justiças, onde põe bispos e arcebispos, onde
põe todos os outros ministros da fé, da doutrina, das almas. E
quanto juízo, quanta verdade, quanta inteireza, quanta consciência e
necessária para distribuir bem estes ondes, e para ver onde se põe
cada um. Se pondes o cobiçoso onde há ocasião de roubo, e o fraco
onde há ocasião de defender; e o infiel onde há ocasião de renegar,
e o pobre onde há ocasião de desempobrecer, que há de ser das
conquistas e dos que com tanto e tão honrado sangue as ganharam?


Oh! que os sujeitos que se põem nestes lugares são pessoas de
grande qualidade e de grande autoridade, fidalgos, senhores, títulos!
Por isso mais. Os mesmos ecos de uns nomes tão grandes em
Portugal, parece que estão dizendo onde se hão de pôr. Um conde?
Onde? Onde obre proezas dignas de seus antepassados, onde
despenda liberalmente o seu com os soldados e beneméritos, onde
peleje, onde defenda, onde vença, onde conquiste, onde faça justiça,
onde adiante a fé e a Cristondade, onde se honre a si, e à pátria, e ao
príncipe que fez eleição de sua pessoa. E não onde se aproveite e
nos arruine, onde se enriqueça a si e deixe pobre o estado, onde
perca as vitórias e venha carregado de despojos. Este há de ser o
onde: Ubi?
E quanto este onde for mais longe, tanto hão de ser os sujeitos de
maior confiança e de maiores virtudes. Quem há de governar e
mandar três e quatro mil léguas longe do rei, onde em três anos não
pode haver recurso de seus procedimentos nem ainda notícias, que
verdade, que justiça, que fé, que zelo deve ser o seu! Na parábola
dos talentos, diz Cristo que os repartiu o rei: Unicuique secundum
propriam virtutem (Mt. 25,15): A cada um conforme a sua virtude,
e que se partiu para outra região, dali muito longe, a tomar posse de
um reino: Abiit in regionem longinquam accipene sibi negnum (Lc
19,12). Se isto fora história, pudera ter sucedido assim, mas se não
era história senão parábola, porque não introduz Cristo ao rei e aos
criados dos talentos na mesma terra, senão ao rei em uma região
muito longe, e aos criados dos talentos em outra? Porque os criados
dos talentos ao longe do rei é que melhor se experimentam, e ao
longe do rei é que são mais necessários. Nos Brasis, nas Angolas,
nas Goas, nas Malacas, nos Macaus, onde o rei se conhece só por
fama e se obedece só por nome, aí são necessários os criados de
maior fé e os talentos de maiores virtudes. Se em Portugal, se em
Lisboa, onde os olhos do rei se vêem e os brados do rei se ouvem,
faltam a sua obrigação homens de grandes obrigações, que será in
regionem longinquam? Que será naquelas regiões remotíssimas,
onde orei, onde as leis, onde a justiça, onde a verdade, onde a razão,
e onde até o mesmo Deus parece que está longe?
Este é o escrúpulo dos que assinalam o onde; e qual será o dos
que o aceitam? Que me mandem onde não convém, culpa será, ou
desgraça, de quem me manda; mas que eu não repare aonde vou!
Ou eu sei aonde vou, ou o não sei. Se o não sei, como vou onde não
sei? E se o sei, como vou onde não posso fazer o que devo? Tudo
temos em um profeta, não em profecia, senão em história. Ia o
profeta Habacuc com uma cesta de pão no braço, em que levava de
comer para os seus segadores, quando lhe sai ao caminho um anjo, e
diz-lhe que leve aquele comer a Babilônia, e que o dê a Daniel, que
estava no lago dos leões. Que vos parece que responderia o profeta
neste caso? Domine, Babylonem non vidi, et lacum nescio (Dan.
14,35): Senhor, se eu nunca vi Babilônia, nem sei onde está tal lago;
como hei de levar de comer a Daniel ao lago de Babilônia? Eu digo
que o profeta respondeu prudente; vós direis que não respondeu
bizarro, e segundo os vossos brios assim é. Se os segadores andaram
aqui nas lezírias, e o recado se vos dera a vós, como havíeis de
aceitar sem réplica? Como vos havíeis de arrojar ao lago, a
Babilônia e aos leões? Avisam-vos para a armada, para capitão-demar-e-guerra, para almirante, para general, e sendo o lagozinho o
mar oceano, na costa onde ele é mais soberbo e mais indômito, ver
como vos arrojais ao lago! Acenam-vos com o governo do Brasil,
de Angola, da Índia, com a embaixada de Roma, de Paris, de
Inglaterra, de Holanda, e sendo estas as Babilônias das quatro partes
do mundo, ver como vos arrojais a Babilônia! Há de se prover a
gineta, a bengala, o bastão para as fronteiras mais empenhadas do
reino, e sendo a guerra contra os leões de Espanha, tanto valor, tanta
ciência, tanto exercício, ver como vos arremessais aos leões! Se vós
não vistes o mar mais que no Tejo, se não vistes o mundo mais que
no mapa, se não vistes a guerra mais que nos panos de Tunes, como
vos arrojais ao governo da guerra, do mar; do mundo?
Mas não é ainda este o mais escandaloso reparo. Habacuc levava
no braço a sua cesta de pão, mas ele não reparou no pão nem na
cesta: reparou somente na Babilônia e no lago; vós às avessas, na
Babilônia e no lago, nenhum reparo; no pão e na cesta, aí está toda a
dúvida, toda a dificuldade, toda a demanda. Babilônia, Daniel, lago,
leões, tudo isso é mui conforme ao meu espírito, ao meu talento, ao
meu valor. Eu irei a Babilônia, eu libertarei a Daniel, eu
desqueixarei os leões, se for necessário; não é essa a dificuldade,
mas há de ser com as conveniências de minha casa. Não está a
dúvida na Babilônia; está a dúvida e a Babilônia na cesta. O pão
desta cesta é para os meus segadores; ir e vir a Babilônia, e
sustentar a Daniel à custa do meu pão, não é possível nem justo. Os
meus segadores estão no campo, a minha casa fica sem mim,
Babilônia está daqui tantos centos de léguas, tudo isso se há de
compor primeiro; hão-me de dar pão para os segadores, e pão para a
minha casa, e pão para a ida, e pão para a volta, e para se acaso lá
me comer um leão, que só neste caso se supõe o caso, e por se acaso
eu morrer na jornada, esse pão há-me de ficar de juro, e quando
menos em três ou quatro vidas. Não é isto assim? O ponto está em
encher a cesta e segurar o pão. E o de mais? Suceda o que suceder,
confunda-se Babilônia, pereça Daniel, fartem-se os leões, e leve o
pecado tudo. Por isso leva tudo o pecado. E quantos pecados vos
parece que vão envoltos nesta envolta, de que nem vós, nem outros
fazem escrúpulo? Mas, dir-me-eis, se acaso vos quereis salvar: –
Pois, padre, como me hei de haver neste caso? – Como se houve o
profeta. Primeiro escusar, como se ele escusou, e se não valer a
escusa, ir como ele foi. E como foi Habacuc? Tomou-o o anjo pelos
cabelos, e pô-lo em Babilônia Se vos não aproveitar uma e outra
escusa, ide, mas com anjo, e pelos cabelos: com anjo que vos guie,
que vos encaminhe, que vos alumie, que vos guarde, que vos ensine,
que vos tenha mão, e ainda assim muito contra vossa vontade: pelos
cabelos. Mas que seria se em vez de ir pelos cabelos fôsseis por
muito gosto, por muito desejo, e por muita negociação? E em vez de
vos levar da mão um anjo, vos levassem da mão dois diabos, um da
ambição, outro da cobiça? Se estes dois espíritos infernais são os
que vos levam a toda a parte onde ides, como não quereis que vos
levem ao inferno? E que nestes mesmos caminhos seja uma das
alfaias deles o confessor! E que vos confesseis quando ides assim, e
quando estais assim, e quando tornais assim! Não quero condenar,
nem louvar, porque o prometi; mas não posso deixar de me admirar
com as turbas: Et admiratae sunt turbae.»

*


SERMÃO DA PRIMEIRA
DOMINGA DA QUARESMA,
PREGADO NA CAPELA REAL, NO ANO DE
1655


§VI
«Se o demônio nos mostrasse procurações de Deus para nos dar
todos os reinos do mundo, aceitá-lo-íamos? Réplicas a esse
oferecimento: a brevidade da vida, a inconstância dos reinos, e a
limitação da natureza humana. Deus nos livre de pôr a salvação de
nossa alma em dúvida. A túnica interior e as vestiduras exteriores
de Cristo, símbolos da alma e dos bens temporais divididos ou
lançados à sorte.
80. Quando o demônio ofereceu o mundo a Cristo, disse-lhe
juntamente, como refere S. Lucas, que ele tinha poderes de Deus
para dar o que oferecia: Tibi dabo potestatem hanc universam, et
gloriam eorum, quia mihi tradita sunt, et cui volo, do illa.
22 Estes
poderes que o demônio alegava eram tão falsos como as mesmas
promessas. Mas, para apertarmos este ponto, suponhamos que os
poderes eram verdadeiros, e que eram ainda maiores. Suponhamos
que tinha o demônio poderes de Deus, para verdadeiramente dar
este mundo a um homem, e demais destes poderes, que tinha
também delegação da onipotência para prometer; cumprir e
executar tudo o que quisesse. Neste caso, se o demônio nos
propusesse o mesmo contrato que hoje propôs a Cristo, se nos
oferecesse todos os reinos e grandezas do mundo, e nos mostrasse
procurações de Deus para tudo, aceitá-lo-íamos? Eu entendo que
neste caso, qualquer homem bem entendido podia pôr três réplicas,
ou três instâncias, a este oferecimento: a primeira, na brevidade da
vida; a segunda, na inconstância dos reinos; a terceira, na limitação
da natureza humana.


Ora, discorrei comigo, e falemos com o
demônio. – Tu, demônio, me ofereces todos os reinos do mundo.
Grande oferecimento é, mas bem sabes tu que Alexandre Magno
não durou mais que seis anos no império, e outros imperadores
duraram muito menos, e algum houve que durou só três dias. Pois
por seis anos, ou por vinte anos, ou por quarenta anos que posso
viver; e esses incertos, hei eu de entregar a minha alma? Não é bom
partido. — Não seja essa a dúvida – diz o demônio – eu te seguro,
com os poderes que tenho, cem mil anos de vida, e esses sem dor;
sem velhice, sem enfermidade. Há mais Outra dúvida? – Ainda que
eu haja de ter cem mil anos de vida, quem me segurou a mim a
duração e permanência desses reinos e dessa monarquia?
81. Não há coisa mais inconstante no mundo que os reinos, nem
menos durável que sua glória e felicidade. Sem recorrer aos
exemplos passados, digam-no as mudanças que vindos nestes
nossos dias, em que tão pouco segura tiveram os reis a obediência
dos vassalos e a coroa, e ainda a mesma cabeça sobre que assentam
as coroas.23 Pois se os vassalos mesmos se me houvessem de
rebelar, ou os estranhos me houvessem de conquistar os reinos, que
me importaria a mim ter o nome e o domínio deles? – Não seja essa
também a dificuldade – diz o demônio – eu te asseguro a duração e
perpetuidade da monarquia e todos os reinos que te mostrei, por
espaço de cem mil anos, e te prometo que as possuirás sempre
quietos e pacíficos. Há mais ainda alguma coisa em que reparar? –
Ainda há uma. Sendo eu rei de todo o mundo, não me posso gozar
de todo ele ao mesmo tempo. Quando tiver a corte em Lisboa, não a
posso ter em Paris; quando a tiver em Roma, não a posso ter em
Constantinopla; se lograras terras da Europa, não posso lograr as da
América; se lograr as delícias de Itália, não possa gozar as da Índia.
Pois se eu não hei de ter mais capacidade para os gozos da vida, do
que tem qualquer outro homem, que me importa ter tanto poder e
tanta matéria para eles? Também isso tem remédio – diz o demônio.
– Assim como Cristo no Sacramento está em todos as lugares do
mundo, sendo um só e o mesmo, assim farei eu pela onipotência
delegada, que tu, sendo um só, estejas juntamente em todos os
lugares do mundo, para que em todos possas gozar tudo o que
quiseres.
82. Eis aqui as condições com que suponho que nos oferece o
demônio o seu contrato. Parece-vos que são boas condições estas, e
dignas de se aceitarem? Um homem com cem mil anos de vida
seguras, sem dor, nem enfermidade; um homem monarca universal
de todos os reinos do mundo, com certeza de não se mudarem; um
homem multiplicado em todas as partes do mundo, para poder gozar
no mesmo tempo as delícias de todo ele. Parece que a imaginação
não pode inventar mais, nem querer mais o desejo. Dizei-me agora:
se este contrato vo-lo oferecesse o demônio, assinado por Deus,
aceitaríeis esta vida, esta majestade, estas delícias de cem mil anos,
com condição de, no cabo deles, perder a alma, e ir ao inferno? É
certo que nenhum de nós aceitaria tal contrato. Ao menos, eu não.
Pois se não aceitaríamos ao demônio um tal contrato, como
aceitamos tentações tão diferentes? Dizei-me: quando o demônio
vos tenta, promete-vos larga vida? Antes são muitas vezes tais as
tentações que sabeis de certo que, caindo nelas, quando menos,
haveis de encurtar a vida e perder a saúde. Mais. Quando o demônio
vos tenta, promete-vos reinos e monarquias universais do mundo?
Não: um governo, uma privança, um título, um morgado, uma
herança e outros interesses menores. Mais. Quando o demônio vos
tenta, multiplica-vos a capacidade dos sentidos, para que possais
gozar com maior largueza e sem limite os gostos e delícias do
mundo? Nada disto. Pois se fora loucura e rematada loucura
entregar um homem a sua alma por aquele contrato, que será
entregarmo-la cada dia e cada hora por tentações de tanto menos
porte? Por uma vaidade, por um desejo, por uma representação, por
um apetite, que no instante de antes o desejais, e no instante de
depois o aborreceis? Tomara que me respondêsseis a esta evidência,
para ver que razão me dais.
83. Só uma vos pode ocorrer que tenha alguma aparência, e é o
que nos engana a todos. Padre, entre aquele contrato e as tentações
ordinárias do demônio há uma diferença grande. Consentindo
naquele contrato, ficava eu perdendo a minha alma de certo;
consentindo nas outras tentações, somente ponho a minha alma em
dúvida, porque, depois de aceitar a tentação e lograr o que o diabo
ou o apetite me promete, posso arrepender-me, e salvar-me.
Primeiramente essa mesma conta fizeram todos os cristãos que
estão no inferno. Mas sem chegar a essa suposição, tão leve negócio
é pôr a alma e a salvação em dúvida? Aprendamo-lo do mesmo
demônio, e torne a tentação a ser remédio. Quando o diabo tentou a
Cristo, bem via que aquele homem, quem quer que fosse, depois de
aceitar o partido e se ficar com os reinos do mundo, assim como se
houvesse posto de joelhos diante da demônio, para o adorar, assim
se podia pôr de joelhos diante de Deus, para pedir perdão e se
restituir à graça, e salvar-se. Pois se isto era assim, por que lhe
oferecia o demônio todo o mundo, só por aquela adoração, só por
aquele pecado? Porque aquele pecado em um homem, ainda que lhe
não tirava a salvação com certeza, punha-lhe a salvação em dúvida,
e só por pôr em dúvida a salvação de uma alma, dará e dá o
demônio todo o mundo. Pois se a demônio, que não é interessado
como eu, dá o mundo, só por pôr a minha salvação, em dúvida, eu
por que porei em dúvida a minha alma e a minha salvação, ainda
que seja por todo o mundo?
84. Cristãos, Deus nos livre de pôr a salvação de nossa alma em
dúvida, ainda que seja pelo preço de todo o mundo e de mil
mundos. O que se põe em dúvida, pode ser e não pode ser. E se for?
Se a dúvida inclinar para a pior parte, se eu me não salvar e me
condenar, como se condenaram tantos que lhe fizeram esta mesma
conta; será bem que fique a alma nestas contingências? Oh! tristes
almas as nossas, que não sei que nas têm feito, que tanto mal lhes
queremos! Por certo, que não nos havemos nós assim nas
temporalidades. O negócio em que vos vai a vida, ou a fazenda, ou
a honra, ou o gosto, contentais-vos com o deixar nessas dúvidas?
Não buscais sempre a mais segura? Pois só a Deus e à ventura hão
de ser para a triste alma? Vede como se queixava Cristo desta semrazão: Diviserunt sibi vestimenta mea, et super vestem meam
miserirut sortem (Mt. 27,35): As minhas vestiduras exteriores,
dividiram-nas para si, e a minha túnica interior, lançaram-na a
sortes. – Os vestidos exteriores de Cristo, dividiram-nos entre si os
soldados em partes iguais; a túnica interior, jogaram-na a ver quem
a levava inteira. Que é esta túnica interior, e que vestiduras
exteriores são estas que os homens receberam de Deus? As
vestiduras exteriores são os bens temporais, a túnica interior é a
alma. Vede agora com quanta razão se queixa Cristo: Diviserunt
sibi vestimenta mea: as vestiduras exteriores, os bens temporais
estimam-nos os homens tanto que os não querem pôr na dúvida de
uma sorte: dividem-nos com grande tento, reparando em um fio, e
cada um segura a sua parte; Et super vestem meam miserunt sortem:
porém a túnica interior, a alma, fazem tão pouco caso dela os
homens, que a lançam a sortes e à ventura, ao tombo de um dado.
Atrevemo-nos a estar eternamente no inferno? Para quando
guardamos os nossos juízos? Para quando guardamos os nossos
entendimentos? Por que cuidais que foram prudentes as cinco
virgens do Evangelho? Por que eram muito entendidas? Por que
falavam com grande discrição? Não. Porque quando as companheiras lhes pediram do óleo para acompanhar o esposo às bodas,
elas responderam: Ne forte non sufficiat nobis, et vobis (Mt. 24, 9):
Não, amigas, porque não sabemos se nos bastará o que temos. – Pôr
em dúvida a entrada do céu, pôr em dúvida a salvação da alma, nem
por amor das amigas, nem por amor das bodas, nem por amor do
esposo.»