
Vale a pena ler A ordem internancional pós-pandemia, I As raízes fundas, II e III O diálogo e o confronto geopolíticos, de Jaime Nogueira Pinto, no Observador.
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«Também – e era discurso optimista dos Fukuyama (de inspiração hegeliana) – se esperava um fim da História, ou seja, que não houvesse mais alternativa – no plano das ideias pelo menos – à democracia e ao capitalismo. Este mundo pós-Guerra Fria passou também a ser um mundo globalizado, já que os sistemas políticos deixavam de dividir os mercados e, aparentemente, os Mercados passavam a comandar os Estados.
Assim foi na última década do século XX. Mas logo no início do século XXI o aparecimento em força do terrorismo de inspiração jihadista mostrou que a “paz perpétua” não era garantida. E logo depois, a crise de 2007-2008, mostrou que os Mercados e a Economia, deixados à solta, também não eram perfeitos. E, lição principal, que os mecanismos globalizadores, estavam a contribuir para um empobrecimento das classes trabalhadoras e das classes médias da Europa e dos Estados Unidos.
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Tudo isto tendo, como pano de fundo um mundo, em que interesses nacionais se voltaram a afirmar e de onde desaparecera o modelo competitivo de duas grandes potências, podendo antes falar-se em fragmentação de grandes e médio-altas potências, competindo geralmente em formas político-diplomáticas e pacíficas não pela hegemonia mas pela afirmação regional.»
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«Ainda por cima com uma comunidade académica e mediática de tal modo anti-Trump, que atribui a este toda a desgraça da pandemia e da economia.
Pessoalmente não subscrevo tal teoria; mas reconheça-se que, para além da morte e desolação na Europa (onde ninguém se lembra de culpar os governos da Espanha e da Itália pelos mortos da Covid-19, o que é feito para os Estados Unidos e o Brasil), há modos e modelos de ordem internacional que vão ser postos em causa. Como a globalização e o conceito de mundo sem fronteiras: a defesa, como desde os mais remotos tempos, é o isolamento – sãos/doentes, país/ exterior. Shengen entra em quarentena, mas os circuitos de produção e distribuição do mundo global vão ser, todos eles, afectados. Ninguém, durante muitos anos, vai querer ter uma rede de fornecedores industriais que envolva, como hoje acontece, dez ou vinte países; como ninguém vai gostar que a comida que come e os remédios que toma venham de um lugar em que não tenha confiança.
O isolamento, o confinamento, o fecho das fronteiras com eficácia para parar ou diminuir a incidência da peste é, contudo, fatal para a economia industrial e agrícola. A produção de coisas não se pode fazer sem o empenho directo das pessoas, não em teletrabalho.
Neste sentido, a globalização – a supremacia dos mercados sobre os Estados – vai sofrer muito com a Covid-19.»
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«Passamos à ordem internacional pós-pandemia e aos seus principais protagonistas que são: numa primeira linha, os Estados Unidos, a República Popular da China e (apesar de tudo)) a União Europeia, sob a batuta franco-alemã. Numa segunda linha, a Rússia, a Índia, o Japão, o Brasil e ainda poderes mais ou menos importantes como o Reino Unido ou a Turquia.»
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«A sociedade internacional vai ter uns tempos largos de geometria variável, de alianças fragmentadas, vão quebrar-se certos laços e redes e refazer-se outros. Vai ser uma “era de incerteza”, em resumo; mas os fixismos ideológicos, as obsessões programáticas, os preconceitos maniqueístas, toda uma gramática ideologicamente correcta vai desaparecer perante a realidade e provas duras, com as quais os povos, as famílias, as pessoas, vão ter de aprender a viver e a sobreviver.
E a ordem internacional, o seu espírito e os seus valores, a hierarquia dos Estados protagonistas irá renascer depois desse período – que esperemos seja curto – de incerteza e de alguma desordem. Costuma ser assim na História dos homens e das suas comunidades, e se há coisa que não mudou desde a peste de Atenas até hoje, foi a natureza humana.»