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20/12/2024

Diário 26 de Outubro de 2024




Imagem IKEA.



Lá passou mais uma semana e aqui estou para dar conta do meu dia-a-dia.


Hoje mais uma vez a comunicação social está em polvorosa com as manifestações dos dois quadrantes ideológicos em reacção à intervenção policial e morte na Cova da Moura e subsequentes desacatos, violência, agressões físicas graves e estragos de bens públicos e privados pelos que protestaram. Uns manifestam-se solidários com o cidadão morto na sequência de desobediência às ordens policiais, outros defendem a intervenção das autoridades. Procurei ver apenas um jornal noticioso não repetindo as reportagens exibidas em catadupa nas televisões e não quis conversar acerca do assunto com quem comigo esteve e dele falou.


A semana decorreu trabalhosa já que a colega com quem divido tarefas esteve ausente três dias. Tive menos tempo para pensar na morte da bezerra e tudo decorreu na normalidade.


Em termos pessoais noto algum distanciamento de resposta. Como explicar? Habitualmente não deixava emails ou mensagens por responder. Nas últimas semanas tenho deixado alguns em banho-maria. O que vai conduzir a possível ausência de resposta. Ou talvez não, a dê de modo mais pensado e isso até traga algo positivo.


A despropósito hoje voltei a reflectir acerca do prazer de ofender e causar sofrimento. Conheço-me. Sou crítica e por vezes agressiva na defesa do que acredito, mas odeio ofensas gratuitas e em consciência não as pratico. Retirar prazer do sofrimento alheio por pura leviandade ou maldade é revelador de falta de carácter e é impressionante como o detectamos em várias personagens no espaço público e privado. Há mesmo quem cresça e obtenha sucesso através da angariação de audiências, vendas ou votos com base na ofensa e na agressão às claras ou dissimulada. Alguns dizem fazê-lo a coberto da liberdade de expressão. Outros consideram tais demonstrações provas de sofisticação moral e intelectual. Estes comportamentos patentes seja em gente com visibilidade seja em anónimos andam em muitas ocasiões associados a outros como a falsidade, o oportunismo, abuso de confiança e desvirtuamento do trabalho alheio. É a distorção completa dos valores de gente de sucesso à custa do talento, trabalho e ofensa do bom nome alheio.


O cúmulo da lata é ver autores de atitudes descritas no parágrafo anterior virem com conversa fiada de aconselhamento e julgamento moral. Gostam de fazer a defesa da inteligência ao mesmo tempo que promovem o compadrio e a mediocridade mal disfarçada de pseudo-intelectualidade e pseudo-erudição numa caça constante de protagonismo e ambição de audiência e poder. Gostam de defender a discrição e reserva da vida privada como se algum dia tivessem tido respeito pela vida alheia. Promovem relações de conveniência e interesses mesquinhos e pelam-se por tentar destruir gente válida de maior qualidade crescendo profissional, pessoal e socialmente à custa da falsidade e desonestidade, da ofensa e uso deturpado do talento alheio. Como fraudes de carácter e engenho corrompidos precisam de promover a mediania disfarçada de literata sapiência para continuarem a reinar.


Hoje de manhã saí e fiz vários gastos. Fui ao IKEA e encomendei o sofá para o escritório do Nuno. Da mesma gama do sofá da sala, mas em versão compacta. Inicialmente achámos que iríamos estofar o antigo, como fizemos há uns anos com uma poltrona, todavia ficaria mais caro do que o novo. Aproveitei encontrar-me no Mar Shopping e comprei um sobretudo preto para mim. O meu casacão negro tinha muitos anos e já envergonhava. Trouxe também duas camisolas quentes para o Nuno, uma grená, outra cinza claro.


À tarde em casa ainda desasada com a falta do exercício de escrita e da interacção dos últimos anos, voltei a dedicar-me a tarefas domésticas. Além do normal tratamento da roupa da semana, resolvi prestar atenção ao sofá azul da sala. Tirei as fronhas das almofadas do assento e das costas e lavei-as na máquina. E atento o mau estado do tecido com vários puxões de fios pelas arranhadelas do gato em pequeno, comecei com o rabo de uma agulha de lã mais tarde com o dente torto de um garfo a enfiar os fios para dentro. Fiz apenas um pouco na base do sofá, mas tenho tarefa para muito tempo. É uma questão de o ir fazendo quanto estiver para aí virada. Dada a paciência exigida pode ser que seja terapêutico.


Ontem fui à consulta anual de medicina de trabalho. Estou apta a continuar a trabalhar, dizem. Descobri apenas que já não oiço a 100% do ouvido esquerdo, o que não sabia. E estou a ver ainda pior ao perto, o que não desconhecia. Tensões óptimas, coração impecável.


No início do mês tive consulta com a médica que acompanha os humores. Ao fim de tantos anos resolvi fazer duas perguntas. O diagnóstico. E esse apesar de ter o rótulo inicial que sempre tive em mente, segundo a médica é bem mais benévolo do que eu considero. Ou seja, acha que algumas das características pessoais que atribuo à doença não se devem a qualquer distúrbio, mas traço de personalidade. E foi dizendo que o que tive há vinte anos foi um episódio que deu azo ao rótulo e que se continuo a tomar medicação — que por diversas vezes ao longo dos últimos sugeriu começar a retirar, insistindo eu na necessidade de continuar - é para evitar a reincidência de alguma crise semelhante e não propriamente para tratamento da doença. Aproveitou para me pôr a par de todos os meus diagnósticos que estão relatados no SNS e acabei por descobrir uma maleita que nem sabia tinha tido: pancreatite aguda. A segunda pergunta versou a possibilidade de reforma por doença. A resposta foi afirmativa. Ou seja, caibo nos critérios. Não creio que me beneficie. Não só sob a perspectiva financeira como mesmo em termos de saúde. Já que trabalhar pode ser terapêutico.


No passado fim-de-semana resolvi mudar a estação de rádio que oiço habitualmente. Nos últimos anos virei muito para o jazz mais comercial da Smooth fm como companhia. Também aí creio precisar de mudança atento um certo adormecimento. No fim-de-semana sintonizei a Antena 2, porém não me satisfez. Foi bom ouvir belas composições clássicas, óperas e flamenco, mas não sei se estou virada para as entrevistas com presunção intelectual. Entretanto tenho passado de estação em estação, sobretudo naquelas que se dizem dirigidas a público jovem-adulto, na onda do rock progressivo. Também me estreei na Spotify. Daqui a uns tempos talvez construa a minha playlist, para ir ouvindo no percurso casa-trabalho.


Além das chamadas familiares costumeiras, esta semana ligou o amigo R. e ficou alinhavado um cafezito há muito pensado e sempre adiado. Vou gostar de cuscar as novidades do R. É engraçado como, ao lado de amigos a quem conhecemos bem os traços de personalidade e interesses, há outros que vamos descobrindo ao fim de quase vinte anos de amizade.


Li vários posts aqui no Medium de assuntos diferentes: política norte-americana, pintura inglesa do século XIX, a construção da nova capital da Indonésia e a história de outras cidades construídas de raiz, crónicas motivacionais, perspectivas da vida sentimental etc. Em termos de livros é que esta semana foi fraca, ao contrário das semanas anteriores.


Hoje de manhã acordei bem-disposta. Tomei café enquanto regava as plantas e acompanhava o Ritz na varanda. O costume. Fui para o chuveiro a trautear e desafinar a eterna Memory do musical Cats e o Nuno reagiu: é bom voltar a ver-te assim, animada.


Obrigada por lerem. Boa semana.


 


Publicado inicialmente na plataforma Medium no dia 27 de Outubro de 2024.