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24/12/2024

Diário de 21 de Dezembro de 2024









Não sou boa a fazer votos de Miss Mundo. Mas o que posso desejar é que Deus ou o Universo ou lá o que raio dá sentido a tudo isto poupe as crianças, as mulheres e os homens do sofrimento.

 











 


Entrámos na semana que passou pela porta da pintura e pelos aposentos íntimos de Maria, n’ A Anunciação, de Botticelli. A visita do arcanjo Gabriel no cenário do século XV. Do post que li aqui no Medium retive dois aspectos: Maria é representada diversas vezes a estudar as escrituras e na obra usa-se a técnica do ponto único de fuga para dar perspectiva. Agora salto pela mão de outra autora aqui da plataforma que trabalha como guia turística para o início do século XIX e para a Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David, uma pintura neoclássica que dramatiza como “propaganda imperial” o evento ocorrido a 2 de Dezembro de 1804. A autora desmonta a obra recordando que a sorridente mãe de Napoleão, muito destacada, não compareceu, e o Papa Pio VII que é retratado a abençoar a coroação não podia estar mais furioso com a auto-coroação de Bonaparte e definição da independência face à Igreja. Todos estes pormenores e mais alguns podem ser lidos na ligação Lists para os textos que dão origem aos presentes comentários.


Li ainda por aqui uma história de sensata recomendação: dar o coração a quem o merece. Não nos devemos esquecer: não havendo reciprocidade de bons, claros e declarados sentimentos é aconselhável desapegar — afastarmo-nos de quem não nos quer bem e eventualmente nos acha tão só úteis ou qualquer coisa do género que nem vale muito a pena escalpelizar. Bom, a autora não ia bem neste sentido, mas a ideia inicial é a que referi.


Por fim li uma interessante história acerca das novas ideologias anti-democráticas que idealizam substituir a democracia liberal por modelos autoritários de governo corporativos. Fiquei logo a imaginar as grandes tecnológicas a tomarem o poder não só fáctico, como institucional. A autora recorda exemplos históricos desde as cidades-estado da Grécia Antiga até ao fundamento tradicional-religioso das monarquias. E denunciando as reais intenções — manter o poder nas mãos de uma pseudo-elite supostamente mais preparada — goza um pouco com a intelectualização bacoca em detrimento de noções básicas de eficiência de governação.


Há dois dias dei por mim a magicar a ideia de não ter concretizado o desejo de viver e trabalhar num país estrangeiro durante um par de anos para me pôr à prova. Nesta altura do campeonato é possível que já não suceda e se querem saber voltou a não ser importante para mim — como todos tenho fases e volto agora a sentir-me bem no ninho português (apesar das muitas críticas que nos faço) e a achar que não iria ganhar assim tanto partindo fisicamente para outras bandas. E dei por mim a pensar que de certa forma nos últimos 25 anos tenho emigrado virtualmente. Isto é, em cada fase da vida em que participo online em plataformas sediadas no exterior ou com utilizadores estrangeiros acabo por ter um cheirinho do viver fora de portas. Bem sei que a comparação é forçada e nada como viver mesmo com o corpo inteiro com as pessoas nas casas, ruas, empresas, parques, restaurantes, lojas, museus etc de um outro país. Mas o que fazer? A vida de cada um é como é. Valeram-me as viagens, talvez venha a fazer mais algumas. Já é uma sorte.


No Domingo passado fiz um plano de actividades para toda a semana. Tinha muito a tratar para deixar tudo operacional para a época de Natal, em que vai estar cá a mãe do Nuno, estando eu a trabalhar. Tinha de destinar tudo. Amanhã vamos buscá-la a Lisboa, pelo que vou passar sete horas no comboio Intercidades. Vai ser cansativo. Todos os itens do apontamento de Domingo passado foram tratados. Apenas hoje nos baralhámos um pouco tendo ido ao supermercado três vezes por de cada vez nos esquecermos de qualquer coisa. Parecerá tudo a régua e esquadro ou muito minucioso, mas gosto de estar precavida para que não corra mal. Para perceberem o que está em causa, são pormenores como a cama e quarto confortável e aquecido para quem tem 81 anos, as cortinas do quarto lavadas por nem ter reparado quão precisadas de máquina estavam, a casa mais arrumada porque sogra é sogra, as refeições e ingredientes destinados, a compra dos bilhetes. Esse tipo de coisas que foram entremeadas com valentes dores de dentes e duas idas ao dentista e os dias normais de trabalho. Neste momento estou a sofrer as consequências de uma semana inteira a Brufen. Para além disto os assuntos de que faço caixinha.


Esta manhã cá esteve o M. para a aula de piano, mais desconcentrado ainda do que é hábito. O Nuno hoje teve de se impor explicando que sem repetir de forma aborrecida os exercícios não se aprende a tocar. Como lembrança de Natal demos ao M. chocolates e A História da Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luís Sepúlveda, livro que costumo oferecer aos filhos de amigos. Ainda de manhã mãe apareceu com um mimo: uma manta quentinha para reforçar os cuidados com o Nuno e a sua mãe. Em seguida fomos ver uma das casas que tínhamos em vista nas últimas semanas — a do sótão do Carvalhido. Hoje já lhe vi vários defeitos, além do que já existe uma proposta de compra de outra pessoa. Ou seja, é provável que esteja fora de questão.


Estou morta que o dia de amanhã passe. Esteja e casa e espero que tudo decorra com serenidade na semana de Natal. Agora já sei que dia 24 não trabalho de manhã, o que me dá paz. Tudo quanto desejo é tranquilidade. O mundo lá fora continua duro e sofrido, continuo a ver os jornais, mas não vou abordar as questões do mundo e da actualidade.


Votos de tranquilidade e paz para todos.


É impossível não pensar em quem vive debaixo de guerra ou de outras calamidades humanas. É impossível não nos sentirmos pequenos e mesquinhos preocupados com uma viagem de sete horas e três de intervalo de espera ou noutros contratempos menores.


Não sou boa a fazer votos de Miss Mundo. Mas o que posso desejar é que Deus ou o Universo ou lá o que raio dá sentido a tudo isto poupe as crianças, as mulheres e os homens do sofrimento.


Bom Natal.


 


Publicado no passado Sábado, dia 21, na plataforma Medium.