Como se verá mais adiante a semana foi acelerada pelo que li bastante menos; também aqui no Medium. De qualquer modo não posso deixar de fazer referência a um punhado de histórias. A primeira sobre a pintura de Henri de Toulouse-Lautrec: a forma não erotizada como representava as prostitutas parisienses no final do século XIX — que conhecia bem -, nesse tempo em que a atenção da literatura e das artes em geral debruçava-se sobre estas mulheres com foco na sexualidade. Prova da diferente e inovadora perspectiva deste pintor é o realismo nos retratos da vida quotidiana das prostitutas, como as idas à inspecção médica, que contrastam com a fantasia empregue pela generalidade dos artistas do seu tempo (e de sempre, acrescento eu). E parto já para outra entrada aqui do Medium acerca da explosão de cores expressionistas da tela Improvisação 35 de Wassily Kandinsky. Recuperei a ideia de sinestesia, a relação ou mistura de planos sensoriais diferentes e mais uma vez pude confirmar a importância das cores e como estão associadas a estados emocionais diferentes, fazendo-nos ter sensações distintas tal como ouvir música ou sentir o paladar de diferentes gostos. O autor do post recorda que o pintor procurava estimular e espírito do observador evitando formas concretas e permanentes (que distraíssem, acrescento eu).
Li mais tarde mais duas histórias por acaso, ou seja, juntei-as à ligação Lists sem me aperceber e acabei por lê-las. Há acasos bons. A primeira recorda a importância das relações pessoais para lá das decorações de Natal. Conta-nos um encontro casual com um jovem estagiário que trabalha para pagar os encargos da vida académica e não sobrecarregar a família. Por fim, li um texto que aborda a forma de estar após os cinquenta. Deixámos de ser escravos dos desejos. Pomos de lado a ganância (se correr bem, digo eu). Percebemos que não precisamos de tantos amigos, que estamos bem mais sós ou com um círculo mais reduzido e verdadeiro. Poderá ser a altura da vida em que deixamos de remoer arrependimentos e passamos a ser mais despojados, livrando-nos do desnecessário — despojamento real e não fictício para impressionar incautos.
Como contei no último diário esta semana tive cá a minha sogra. Fomos buscá-la a Lisboa no comboio Intercidades no Domingo passado. O livro que me fez companhia na viagem foi Flores, de Afonso Cruz, que me deram no início do mês — nos próximos dias hei-de acompanhar a recuperação das memórias do senhor Ulme. Aproveitei também a viagem para um par de chamadas telefónicas de Boas Festas. No dia 24 fiz as restantes, este ano bastante abreviadas. Voltando a Domingo, chegámos a casa já de noite. Fiz jantar e fomos descansar para uma semana diferente. Foram dias de maior tensão para mim por naturalmente querer que a mãe do Nuno se sentisse bem cá em casa. Por ter corrido ainda mais atrás dos autocarros para conseguir que tudo funcionasse bem em casa. E levantado mais cedo para um pequeno-almoço sempre pronto para tomarmos os três antes de me preparar para sair. Quase não cozinhei, encomendei quase todas as refeições, mas ainda assim foi preciso gerir as diferentes formas de estar tentando harmonizar tudo. Tive o apoio do Nuno para pôr a mesa e lavar a loiça como de costume, agora com a ajuda da mãe. Na segunda, quinta e sexta-feira trabalhei. Na véspera e dia de Natal estivemos em casa os três sossegados. Correu tudo bem, salvo a minha dor de estômago permanente nestes dias provocada pela semana anterior em que tratei a dor de dentes a Brufen. Digamos que passei esta última semana a fazer as vezes de bulímica. Só comecei a reter as refeições ontem. Como apontamento cómico digo só que tinha análises clínicas marcadas há um ano para dia 26 de Dezembro. Faz um sentido danado ter feito análises ao sangue no dia seguinte ao Natal. Na sexta-feira a minha colega faltou por estar engripada pelo que tive um dia mais trabalhoso.
O Nuno disse estar feliz e pareceu-me verdadeiro e a mãe esteve confortável e bem-disposta cá em casa. A maior fonte de atenção da semana foi o Ritz que a revezou entre as camas do filho e nora e a da sogra. Com preferência pelo quarto onde dormiu a mãe do Nuno já que esteve com o aquecimento ligado em permanência. Traidor.
Na noite de Natal o menu foi diferente: Bacalhau grelhado com batata a murro e grelos, isto é, o prato do restaurante de transmontanos aqui da rua. No dia de Natal o repasto também não foi o habitual: por sugestão da minha sogra comemos Leitão, que encomendei num bom restaurante e estava realmente saboroso. Limitei-me a fazer saladinha fresca, que sempre apetece nestes dias de alimentação mais densa. Bom, e estriei-me a fazer o molho dos sonhos e rabanadas. Para sobremesa tivemos rabanadas, sonhos, bolo-rei e tronco de Natal de ovos, de que ainda hoje há restos.
Servi os vinhos do cabaz da empresa, Douro na ceia de 24, Alentejo no dia 25. E, claro, na mesa houve sempre frutos secos que são o símbolo de mesa de Natal. Senti o Nuno e a minha sogra contentes e essa é uma boa sensação. Trocámos presentes em casa. A mãe do Nuno teve direito a uma blusa e um perfume. O Nuno a pen drives, um anoraque e um tambor xamânico e túnica condizente trazidos pela filha da Tailândia. Eu um roupão de capuchinho-vermelho, coffret de banho e bandeja e tigelas suporte velas de madeira trazida também da Tailândia. A minha enteada já tinha recebido o presente do pai e o meu também: um serviço colorido de loiça de jantar, talheres e copos. Nós ainda tivemos outros mimos dos meus pais e irmãos. O Ritz teve direito a outra cana de pesca com penas.
Na noite de dia 24 após o jantar demos um pulo a casa da minha mãe para rever o Presépio e darmos um beijo aos meus pais, irmãos, cunhada e sobrinhos (acertei em cheio nos tamanhos das camisolas que dei de presente aos pimpolhos) e trocar a conversa boa do costume.
Ontem levantámos cedo para levar a mãe do Nuno à Estação de Campanhã. Ansiosa como fico sempre para que tudo ali corra bem abri a porta da carruagem, deparei-me com uma menina de vinte anos com medo de descer as escadas para sair com mala grande e pesada pedindo ajuda, pelo que peguei na mala dela e quando saiu entrei na carruagem, acomodei a mala da minha sogra e assim que se sentou no lugar munida do bilhete voltei a sair para ir ter com o Nuno e voltarmos para casa. Depois de comermos qualquer coisa fomos dar um giro até à zona de uma potencial casa com interesse (não gostámos da zona, mas hoje estávamos cansados talvez o julgamento seja precipitado). Às quatro da tarde já tinha feito três máquinas de roupa, entre a de cama, mesa e miúda. E estendi tudo — uma das grandes vantagens deste apartamento. Depois dormimos até quase à hora do jantar — o descanso dos guerreiros.
Lembro-me durante a semana ter pensado em coisas que queria dizer no diário. Ideias dispersas relativas a arte, amor e expressão, mas varreram-se. Aparecerão noutra altura com certeza. De qualquer modo fica só um pequeno apontamento: quando gostámos queremos dar e contar. Li isto noutro post aqui no Medium e é verdade. Acrescento: no amor como na arte quando gostámos, damos.
Foi um Natal diferente. O do ano passado foi descrito nos diários de dia 23 de Dezembro de 2023, de 24 de Dezembro de 2023 e de 25 de Dezembro de 2023.
Obrigada por lerem. Bom Domingo e Feliz Ano Novo de 2025.