
Do terreiro no topo sul dos três patamares alicerçados no início de século em muros de pedra de talvez dois metros e meio a três de altura, nos quais se amparavam ramadas de videiras, via-se o estradão que poucos carros trilhavam nos anos 70. A japoneira mais nova, de camélias farfalhudas e pouco consistentes vermelho sangue, era muito jovem, pouco mais alta do que eu. Teria vindo de uma pernada de Tarrio?, a outra quinta da avó a menos de uma dúzia de quilómetros, onde as japoneiras assentavam na base da parede sul da casa, com a levada a correr uns metros mais abaixo e a vista para o rio Sousa, de margens beijadas pelos campos, tantas vezes alagados – mais uma palavra de saudade. Talvez. Mas regressando a Valinhas, passavam poucos carros no estradão que delimitava a quinta ao longo de poucos quilómetros, com murete de pedra baixo e de portão à época inexistente. É assim que conheço a casa da minha infância: sem portão e com as portas sempre abertas senão à noite quando todos dormiam – o último punha a tranca de ferro ou pelo menos confirmava se estava posta – ainda hoje tenho o som metálico dela no ouvido e o cuidado de a colocar encaixando-a nos furos da parede sem fazer muito barulho para não acordar quem já dormisse. Foi muito estranho quando cresci começar a ver as portas cerradas. Nem o truque do postigo encostado me salvava, também esse era trancado. O meu paraíso começava a dissipar-se à medida que se impunha a moderna necessidade de segurança.
Nos dias festivos mais íntimos bastava ir até junto da casinha de madeira e a pequena japoneira para começar a ver chegar os carros da família. Dos comensais. Os cães davam sinal a cada um, anunciando a sua chegada como se reconhecessem à distância e pelo roncar do motor a identidade e proveniência de cada clã mais próximo. E dizíamos para dentro: vem aí tais, vem aí aqueloutros: os de Vila de Conde, da Boavista, de Braga, de Tarrio, do Campo Grande, mais tarde seríamos nós: vem aí os de Gaia. Noutros dias mais esparsos os comensais estendiam-se além dos filhos e netos. E nos finais de Verão em alegres Setembros a casa enchia-se: éramos muitos a pernoitar, a dar bitaites à mesa, a fazer corridas de bicicleta, jogar futebol, cartas ou matraquilhos, a percorrer os caminhos da quinta, a experimentar e explorar os caminhos da mina, a rasgar as calças na pedreira, a trepar aos esteios para comer as uvas americanas. Cerca de trinta almas certas a dar vida à casa, mais os que vinham e iam.
Esta zerichia completa contrastava com os dias chuvosos de Outono já entrado e Inverno, em que a vida se desenrolava calma e pasmacenta, reduzida a sete almas, mais tarde novamente nove. As árvores eram só nossas e havia ramos desocupados prontos a serem trepados, a quinta ficava maior e pronta a ser explorada sem ser em rebanho. Havia tempo para conversar com os cães, os gatos, os outros bichos. Para ouvi-los. Para ver, ouvir e sentir a chuva, os relâmpagos e os trovões entre o arvoredo. Reparar como a água na represa transbordava e nos tanques a da mina jorrava forte. Para escutar o vento a varrer os ramos das árvores que começavam a ficar nus. O assobiar do vento forte. Cada um tratava da sua vida. Havia quem escrevesse à máquina, quem moldasse plasticina, quem lesse, quem cozinhasse, quem estudasse, quem passasse a ferro, quem percorresse as matas da quinta com a pressão de ar, quem tricotasse, quem visse televisão, quem brincasse, quem ajardinasse, quem jogasse poker de dados, quem varresse. Cada um por si, na sua vida. E uma mesa de jantar bastava para reunir todos. A vozearia opinativa do Verão baixava de tom, numa serenidade propícia a que se ouvisse o essencial. A algazarra dava lugar à paz. E havia escola, obrigações. Por mais que muitas não fossem cumpridas, era vida a sério e não férias. Era o paraíso.
Abrigada entre os vários ramos da japoneira mais velha, que não era uma só mas uma mescla, e além de camélias brancas dava as cor-de-rosa raiadas de branco e olho amarelo, em cujos troncos inscrevi a riscos de pequenas pedras pontiagudas os desejos mais secretos de então, não imaginava descobrir quarenta anos depois que aqueles fossem os mais belos anos da minha vida. Nem imaginaria, por muito que mais não fizesse senão idealizar o futuro, que o mundo se transformaria em coisa tão distante do que mais importa.
Escrito a 14 de Junho de 2021.
*
Estes apontamentos e outros já aqui publicados sobre o tópico Verdes são memórias de quem viveu entre o primeiro ano de idade e os doze numa quinta.
Da mesma saga existem os seguintes postais: