Pesquisar neste blogue

31/10/2021

Diário/Meia-noite

Apesar da veemência e acinte que coloco nas palavras, estou em constante dúvida e temo estar a tomar como realidade aquilo que julgo ser o melhor para o país. A ser ingénua, digamos assim. Resolvi então fazer uma sondagem e ouvir opiniões de quem gostar é inabalável por opinião divergente. A questão versa sobre o meu tema recorrente na última semana e que espero encerrar por uns tempos com este postal – País e PSD: Rio versus Rangel.


Foi um fim de tarde e uma noite diferente do habitual. Pôr a conversa em dia com gente de quem gosto. Aproveitar o ensejo para matar dois coelhos de uma só cajadada.


Houve quem não estivesse nem aí por não ser de outra cor política.


Houve quem me dissesse que ainda acreditou que Rio pudesse fazer um acordo ao centro, que permitisse viabilizar as reformas que o país precisa desde a fundação. E não tenha gostado que Costa as inviabilizasse juntando-se à esquerda radical. Mais, não gostando nem de Rangel nem de Rio, veja o último como mais verdadeiro, mas incapaz de ser reeleito, quanto mais não seja por os apoios estarem todos com Rangel. Quando coloquei a hipótese de uma Europa varrida pela extrema-direita, a resposta foi que nem um nem outro seriam apetecíveis como Primeiro-Ministro, um por já se ter coligado com o Chega nos Açores, outro porque o faria à primeira necessidade/oportunidade.


Há quem vá votar no Rangel por acreditar ser a forma de correr com o PS, o principal responsável pela destruição do país e por a entourage de Rio ser velha e enquistada no regime.


Há quem nada saiba sobre Rangel e diga que nunca dará o voto a Rio na qualidade de portuense e portista.


Há quem veja Rangel como establishment e não se sinta representado por ele. E acrescente que não se pode ser conservador não favorecendo o Estado Nação face a qualquer federação. E veja Rio como um Trump ou Bolsonaro a 0,3 volts, quando os outros funcionam a 1000 volts. Ache-o popularucho e sem capacidade para espremer as ideias como os outros, apesar de graças a Deus não ser mentecapto. Concordando comigo quanto às elites, descreva Lisboa como cada vez mais burguesa no mau sentido e recorde o fado da Amália, Lisboa não sejas francesa.


Posto isto, resumo o que penso. Não votaria em Rangel por representar o pior da direita: da insensibilidade social, da conversa da treta sobre reformas que nunca são feitas e são transformadas em cortes avulsos, do aumento das discrepâncias entre ricos e pobres, da apologia do empreendorismo e do mérito quando nada se faz nesse sentido, da retórica bacoca de quem tem interesse em ascender aos lugaritos e manter os interesses instalados.


Nunca votaria PS, mas para ser franca e dizer a verdade se for o Rangel a ir às legislativas é indiferente ser Rangel ou o PS a ganhar. Vai dar ao mesmo: não vão fazer nenhum.


Quanto a Rio, temo ser ingénua e pode parecer pacóvio o que penso, mas tenho-o um pouco à imagem de Cavaco Silva e não tenho tão má imagem de Cavaco como quase todos. Fez alguma coisa pelo país. Foi a altura em que tivemos crescimento. Bem sei que começaram os fundos europeus, mas a verdade é que nos anos seguintes houve mais fundos, que foram desbaratados. No tempo de Cavaco sempre se aproveitou qualquer coisa e crescemos coisa que se visse. Do Rio gosto da experiencia na Câmara do Porto. Gostei que tivesse travado o emprego público. Ao contrário do que era habitual e do seguinte não meteu gente para angariar votos. Conseguiu arrumar as contas públicas. Bem sei que isto soa a salazarento, mas às vezes convém tratar do comezinho, do bom senso, de tratar de uma higiene mental mínima, porque muito do resto é politiquice e zoeira.


De resto sobra quem verdadeiramente condena o destino do país: as elites de Lisboa, sobretudo, as emigradas para Lisboa – comentadores, jornalistas e vips que conduzem a opinião pública sem critério, conforme os apetites do dia, das amizades, do chove ou não chove. Sem critério de justiça ou de qualquer outra ordem de razoabilidade. Se Rio tem esse critério? Não sei. Se as pessoas que o rodeiam são velhos enquistados no regime? Também já me tinha colocado essa questão, temo isso e mais: que não tenham vontade ou força para fazer diferente. Mas os do Rangel não são menos enquistados no poder e são dos que mais mossa fazem. Talvez seja ingénua, talvez acredite que Rio seja pessoa de bom senso e capaz de algum rigor. Entre as pessoas que se apresentam é a única em que acredito minimamente por me parecer mais verdadeira. Não que seja pessoa que desperte interesse nem que nos deixe extasiados com a sua retórica, mas considero-o. Faz o que tem de ser feito. E francamente desde quase a fundação que andamos a inventar, quando tudo quanto é preciso, é limitarmo-nos a fazer o que tem de ser feito, em vez de fazer rodriguinhos com as palavras.


Sucede que Lisboa, a televisão, os jornais e as redes sociais não vêem nada disto e estão a puxar pelo Rangel, pelo que tem a caminha feita. Resta saber quem ganha: se Rangel (e os outros partidos de direita com os quais está condenado a coligar-se apesar do delírio da maioria absoluta que diz ter), se o PS e a caranguejola ressuscitada.


Como nota final digo apenas que tenho plena consciência que escrever tudo o que se pensa sem estratégia é meio caminho andado para ver os argumentos manipulados por outros. É a vida, não deixarei de ser quem sou.