Isto de escrever sobre o que existe ou existia tem que se lhe diga. Pretendia falar de um castanheiro-da-Índia com a particularidade de estar convencida de que a árvore assim chamada na casa onde vivi na infância nunca o foi. Fui ao google maps e confirmei uma vez mais com um aperto no peito que além dele, das oito tílias do terreiro mais as três da rampa, sobra apenas uma. Tombaram todas - as da rampa nos anos 80, as do terreiro nos últimos quinze anos – salvo aquela que foi podada com rigor e a anuência da minha mãe, e a veemente discordância da minha avó, dona da casa e senhora da decisão, que dada a ordem para a poda das tílias logo arrepiou caminho tomando conhecimento da crueza dos cortes. Lembro-me que era muito miúda e odiei aquele esgalhar a frio da árvore. A avó adorava as tílias acima de quase tudo – as minhas tílias - mas não tinha razão. O amor nunca foi bom conselheiro, confirmo agora olhando desolada para a o terreiro desapossado daquelas árvores de grande porte que lhe davam todo o ser.
Mas nem tudo é mau. Vejo no google maps que sobreviveram os carvalhos-negral a norte e os rododendros a sul, e talvez quem sabe as duas japoneiras, pequenas demais para confirmar. Soube também hoje que existem aplicações para identificar os nomes das árvores através de fotografia – o shazam das árvores, digamos assim. Parece que é a pagar, mas é coisa para valer a pena. A conversa relevante do dia foi assim a discussão à volta da folha e do bugalho do castanheiro-da-Índia que não o é. A mim parece uma espécie de carvalho. Há quem aponte para outros áceres. Temos de o conseguir identificar não por fotografia, mas pela memória das folhas vermelhas arredondadas e pontiagudas. Dos bugalhos com picos. Do tronco esguio e a direito de enorme altura.
A minha ideia inicial teria sido escrever hoje mais um postal para a série Verdes ou, quem sabe, para a Quinta – dou por mim a pensar que vai tudo dar ao mesmo: ao meu paraíso – mas saiu apenas este apontamento para diário. Na Quinta espero alargar o espectro aos costados do lado materno e paterno – ao elo Porto e Gaia -, sendo que do lado sul do Douro as informações são muito mais reduzidas pelo que tenho de me empenhar mais. Há quem falando da família trate das pessoas, dos feitos e das relações entre elas, e há quem falando da família queira explorar lugares, plantas e peças que se unem numa certa geografia íntima.