Entre as pessoas que vamos conhecendo ao longo da vida há as que acrescentam, constroem sem grandes tretas e declarações de boas intenções. Simplesmente caminham com rectidão ao nosso lado ou ao longe. E há as que não resistem - apesar de tantas vezes darem a imagem amizade e solidariedade, ou de apregoarem bons princípios e denunciarem futilidades alheias - não resistem, ao mesmo tempo que elogiam abertamente tudo e todos quantos possam trazer dividendos, não resistem a tentar destruir pela calada tudo de verdadeiro e bonito que observam. Divertem-se a tentar de modo dissimulado e ardiloso infernizar os dias dos outros desdenhando-lhes a vida, tirando disso gozo pessoal. Tentado incutir sentimento de culpa pelas desgraças do mundo, tentando amesquinhar, estragar quem segue caminho, como estragados são os seus corações e cabeças - a sua consciência.
Gente que se diz preocupada com o mundo, com o lado certo da vida - que se tem por grande defensora dos interesses maiores da pátria e está convencida de ser o centro do universo, de tudo conhecer da realidade e dos factos - apesar do seu mundinho ser o microscópico conjunto de amigos e percursos da área profissional e das relações baseadas no interesse da tribo. Almas que tentam provocar e alimentar a infelicidade alheia para se entreterem e assim esconderem o vazio podre em que vivem. Almas que precisam de tratar os outros de cima para baixo para se sentirem alguém, para se sentirem respeitadas. Gente que está convencida da sua suprema inteligência - que prega a sensibilidade às tragédias humanas e a isenção na análise dos grandes temas a cada dia em debate, mas despreza o que não consegue perceber, aliás, nem sequer conceber: a existência de gente que não precisa de exibir essa sapiência fajuta limitando-se a viver a própria vida o melhor que sabe.