
O peixinho vermelho apareceu na televisão há duas semanas. Que peixinho? Em que canal? Perguntam vocês, e respondo: em todos. E nas redes sociais também. Mas quais? Perguntam. E respondo: em todas. Quando? Não é relevante. Amanhã aparecerá a arara azul. Arara azul? Mas a que propósito? Nenhum propósito. Tem é que aparecer e o exotismo é uma bela forma de apagar a imagem do peixinho vermelho. Mas para quê? Ora, para que oradores e escrevinhadores de serviço possam dar largas aos dotes argumentativos e possam fazer 'rip' ao peixinho. Mas espera, o peixinho vermelho existiu? Isso não é relevante. As bolsas amanhã vão abalar fortemente. Porquê? Porque os mercados e a opinião pública se tinham afeiçoado ao peixinho vermelho. Como? Se nem sabes se ele existiu. Sei que deixou de ser importante. Agora as massas estão vidradas na arara. Abram um qualquer motor de busca, um qualquer jornal internacional, as páginas do facebook, do instagram, do twitter, lá está a arara azul. Ah, aquele frio na barriga, o formigueiro pelo corpo todo. A novidade. A bela arara. Não, essa que pia não é a arara. Pois não, mas pia. E isso faz-me lembrar qualquer coisa, mas isso não interessa nada, até porque a arara está em vias de extinção. Está? Nunca tínhamos ouvido falar nisso. Vamos ver se não é uma fake new. De que tipo? Pergunto eu. Ora, de que tipo? Das falsas, respondem vocês. Pois, mas das falsas que interessa relevar que são falsas, ou das que é crime de lesa-majestade questionar a veracidade. Não sabemos do que estás a falar. Pois não, estão quase a apaixonar-se pela doninha fedorenta. O quê?! Calma, ainda têm umas horas para se recompor e escrever sobre a dor de verem partir a arara, que vos deixou mais pobres. Façam o vosso 'tpc' diário de adultos infantilizados. Toca a escrever cento e cinquenta palavras sobre o desaparecimento da arara. Tipo a redacção A Vaca da terceira classe? Perguntam vocês eu respondo: sim, mas agora, como crescemos, é imperioso citarem o nome de sete autores respeitados no mundo das feiras e encontros literários, nove livros recomendados pelas melhores marcas de detergentes tira-nódoas de carácter e quatro álbuns de música alternativa. Ah, e não se esqueçam de dois ou três vocábulos do momento e, claro, do vosso amigo Zé. A arara faz-vos sempre lembrar o amigo Zé, sobretudo enquanto ele vos der uma mãozinha. O peixinho vermelho também fazia. Mas tenham cuidado, ao que parece a doninha fedorenta não vai com a cara do Zé. E de tão habituados estão a assinalar as natividades e os óbitos diários, ainda enterram vosso amigo Zé vivo. Em vez da doninha fedorenta, digo.