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04/10/2021

Eternos devaneios

O drama das férias é que tenho tempo para pensar na vida e começo a magicar como arranjar mais cargas de trabalho. Como se não tivesse assuntos sérios para pensar, escapa-se-me o espírito para o que me deixa contente. Dilemas da vida de sonhadora. Pergunto cá em casa: trocamos o apartamento por uma pequena casa com jardim?, ou pego nas minhas pequeninas economias e compro um casebre longe do reboliço citadino para fazer obras, alugar dois terços do ano e aproveitar no outro terço? Depois, começa a saga. Bom, tem de ser perto para ser prática a manutenção. Perto da linha de comboio. Para Sul ou para Norte?, tendo sempre a não querer muito longe do mar. Hum, mas isso encarece, então, que tal a linha do Douro? Não sei. Só queria árvores, erva, musgo, hera, essas coisas. Às tantas Avintes ou Crestuma seriam quanto baste. Regressava ao meu sonho de há 20 anos. Dizia na altura que iria ter uma quintinha onde pudesse ir de autocarro - é um “conceito” diferente de vida rural, ainda possível em Gaia dada a extensão de zona agrícola no concelho. Tal como seria possível do lado de cá do Douro, em Gondomar. Nah, afinal nada disso, nem Gondomar, nem Gaia, a zona predilecta seria Gião ou Vairão, em Vila do Conde. Sendo que quintinha nos meus desejos seria à moda falsária dos anúncios imobiliários: qualquer coisa entre os 500 e os 1000m2, ou seja, um quintal – é engraçado como são enganadores os termos quintal e quintinha. Quando era novita sonhava com um hectare. À medida que envelhecemos começamos a ser ainda mais comedidos nas ambições. Lembro-me sempre de quem me dizia: gostava de ter uma quintinha que pudesse regar de mangueira – é também uma ideia divertida. Pois, mas essas ambições, e para que tivesse o mínimo de condições, implicariam mudar-me mesmo de armas e bagagens para uma casa muito provavelmente fria, com muitos arranjos para fazer constantemente e, pior, preparar-me para trabalhar mais ainda. Além de um sumidouro de despesas. Mais: acabavam-se os supermercados, as paragens de autocarro, os quiosques, as mercearias, a padaria, a costureira, a lavandaria, os barbeiros, os cabeleireiros, etc, tudo num raio de menos de menos de 200 metros - o que me levou a vir para onde estou. Sair para cumprir um devaneio campestre não parece ideia nem viável, nem inteligente.


Ah, mas um casinhoto no meio de árvores, erva, hera, musgo, com uma levada, cheiro a terra e mata por perto é uma tentação. Mesmo.