O acordar normal de fim-de-semana, o pequeno-almoço do costume: iogurte e café. Saída ao centro comercial para comprar duas lembranças para aniversários que se aproximam. A loja de bijuteria, três simpáticas e prestáveis meninas muito jovens a atender. E uma volta sem grande atenção por dois dos pisos do edifício. Ainda pensei comprar qualquer coisa para vestir, mas a saga de mais de 90% das lojas não terem tamanhos muito grandes fez-me desistir. Como comprei um fio, uns brincos e uma pulseira de metais não nobres, deitei o olho distante às ourivesarias a que nunca presto atenção. Houve tempos em que tive umas poucas peças, porém levaram tudo num assalto a casa em 2008 ou 2009. Às vezes penso que foi abençoado: não me fazem falta nenhuma, salvo na memória do carinho das pessoas que as deram e essa ninguém pode roubar. Lembrei-me da proliferação da caça ao ouro que houve nos anos piores da crise.
Depois fomos ao take-away aqui da zona, tinha encomendado rosbife para três. Já não ia lá há algum tempo e é sempre uma conversa alegre. Trocados os cumprimentos da praxe, provoquei: então, lá nos estamos a preparar para outra? O educado dono do estabelecimento falou da pandemia, ao que acrescentei: a essa junta-se a outra, a da economia. Ele retorquiu: ah, fala pandemia da Assembleia? E daí disparamos por menos de um minuto para as discussões irresponsáveis de meninos irresponsáveis: dos 18 ao 80. Até que ele interrompeu: sabe, vejo cada vez menos televisão, oiço muita música, vejo um filme ou outro quando me apetece. Depois falou-me de San Sebastián e de Woodie Allen. Do filme Rifkin's Festival. Ao que parece a história não é grande coisa, mas sempre se vêem as ilhas de San Sebastián. Lembrei-me de ter dito a um amigo no ano passado para não ver tanta televisão evitando dar o tilt por causa do ataque massivo de informação alarmante relativa à covid.
Temos que viver com elas, a pandemia e a economia. As flutuações impostas pelo exterior, impostas por essa neurótica especulação financeira e a falta de juízo das populações que aderem aos clichés da moda. Desde a linguagem à saúde ou à cozinha passando pela política, não distinguindo verdade de mentira, bem do mal, original de imitação. Escudados sobre a aparência das bandeiras da tolerância, da liberdade de expressão, da livre opinião, vão irresponsavelmente - nalguns casos, intencionalmente - utilizando a retórica para inquinar todos estes valores da democracia, desvirtuando-os na miragem da supremacia de uma direita muito mais fanática do que a rasteira e oportunista direita populista do Chega, fácil de domar em Portugal. Difícil de tomar neste país é a direita dos clubes dos interesses, da corrupção, do desrespeito pela vida dos portugueses.
A direita egoísta, arrogante, falsária, que se diz grande empreendedora e de defensora do mérito, quando na prática tem zero de preocupação com o mérito, zero de preocupação com a justiça. É a direita que nos venderam em 2011 e nos querem voltar a vender agora. A que nos entra todos os dias em casa através da televisão, dos computadores, dos telemóveis. A que depressa se venderia aos interesses externos e às ondas ideológicas radicais que se vão levantando na Europa. A que se diz muito conhecedora e muito preparada, traduzindo preparação por capacidade em produzir mais mensagens ou postais politiqueiros no Twitter e no Facebook. É experiente aqui ou na Europa a produzir intriga política. A preparar golpes palacianos. A acusar de fanatismo e radicalismo os que se limitam a tentar levantar a voz contra a lavagem cerebral feita por esta elite de fancaria que calhou a Portugal - experiente na arte da persuasão: a tentar convencer os portugueses que o bicho papão da direita radical está noutros, quando eles mesmo são os portadores do vírus anti-democrata.
Espero com franqueza, mas sem grande esperança, que os portugueses topem quem são os intrujões. Continuo a confiar sempre muito mais em quem tem dúvidas e diz que não sabe isto ou aquilo, do que naqueles que falam sem parar, sempre com certezas absolutas. Naqueles que nunca vêem qualidade alguma nos adversários e só vêem virtudes nos apaniguados.
Quando era criança havia um dito que sempre usávamos: quem diz é quem é. Ao que parece tenho bastante sangue judeu e algum faro para ver de onde vem o mal.
Era para ser um simples diário e acabei por escrever sobre as diatribes da direita. Já desliguei a televisão. Música. Vou ouvir muita música nos próximos dias para tentar abstrair desses irresponsáveis que pululam as televisões, os jornais e as redes sociais.
(continua)