Começo por declarar que o título que desejaria para este postal era “Ranhosa”, mas como de madrugada já atingi o limite de conflituosidade do dia, até ao final do dito vou ser um doce, não ofendendo os leitores com termos pouco adequados ou linguagem vulgar.
Sucede que depois de poucas horas de sono acordei ranhosa, perdão, com o pingo no nariz. A espirrar desalmadamente, com leve dor de garganta e guinadas nos ouvidos. Maravilha, pensei. Estou viva. Julgo que salvo um breve acordar em Almada no passado Julho, já não sabia o que era ter constipações, gripes ou espirros sucessivos, agora em vergonhosos decibéis que me fazem lembrar como era gozada em novita por ter uns espirros quase inaudíveis – não há como crescer em diâmetro para ficar com uma valente caixa torácica.
Esta coisa medonha de andar mais de ano e meio mascarada e sempre de álcool em punho para esfrega das mãos transformou-nos – a mim e aos demais – em seres assépticos cercados de uma redoma de protecção contra a Covid e a morte, mas também contra a vida.
Pelo tipo de dia-a-dia não me convinha andar sem máscara na rua, por estar sempre a entrar e sair de autocarros, edifício do local de trabalho, supermercados, etc, o que me levou a trazer aquele artefacto horrível mais vezes do que devia. Bem o puxava para baixo – fazendo figura tonta - assim que saía do autocarro, do trabalho, do quiosque ou do supermercado, apesar de quase sempre me deparar com um ou outro olhar reprovador.
Não é que faça questão das constipações e gripes, mas lá que me fazem sentir um ser humano normal, fazem. Não peço ao destino que me impinja alguma doença mais séria – até porque convenhamos já fui tendo a minha dose. E sim, é tudo muito bonito: às pedras do caminho apanho-as todas e não há como enfrentar situações extremas para valorizar a vida e desvalorizar as futilidades e mesquinharias. Sim, é tudo muito bonito, mas fiquemo-nos pelas gripezitas para me sentir viva.