
Desde ontem pipocaram-me a mioleira três tópicos para escrever. Vou como habitual usar a agenda para os deixar em suspenso até surgir oportunidade de desenvolver.
- Imobiliário. Vejo que nas últimas semanas está no ar a ideia, supostamente com base em dados do Censos 2021, de haver parco crescimento da construção de novas casas. Daqui vai rapidamente passar-se para a defesa da necessidade de construção desenfreada, muito oportuna e cobiçada. Diz-se também que há poucos imóveis a necessitar de remodelação - que conveniente. E vai-se dar ideia que somos um país com poucos fogos - só rindo. Isto na sequência de notícias que pelo resto da Europa já começaram a baixar os preços do imobiliário, ao contrário de Portugal. Claro que não se vai encarar a questão essencial do absurdo preço das casas: a especulação. Nos próximos anos a comunicação social fará a lavagem cerebral da premência de construção para suprir necessidades de aquisição de habitação a preços razoáveis pelos mais desfavorecidos e pela classe média - é sempre preciso apelar ao sentimento. Dar-se-á a ganhar a uns tantos, chamar-se-á a isso mercado e economia saudável e todos ficarão contentes. Pôr em questão tais verdades é ser lunático, viver fora da realidade e ter mau feitio. Pois claro. Se fosse possível alguém falar verdade sobre o parque e o mercado imobiliário, seria conveniente. Deixo a pergunta: será Portugal o país europeu com mais casas por habitante? Dou pistas para resposta: OCDE. Estará Portugal na média europeia quanto a taxa de sobrelotação de habitação e sobrecarga das despesas de habitação? Dou pistas para reposta: Pordata. Da minha parte não posso adiantar muito mais: não tenho tempo para estudar e como é sabido só mando bitaites. Falta-me seriedade, é uma maçada.
- Diplomacia. Há meses um amigo dizia-me que não devemos bater de frente. Que conseguimos muito mais sendo diplomáticos. Não foram estas as palavras, mas era este o sentido. Foi com diplomacia que me relacionei pessoal e profissionalmente com a maioria das pessoas. É certo que com vastas excepções a confirmar a regra. Mas as palavras que me foram ditas ressoaram (é tique novo, o verbo ressoar) como de costume, até por sabê-las ditas com a melhor das intenções. Como explicar (no sentido de justificar e não ensinar)? Quando se trata de denunciar sujeiras e apoucamentos dos interesses do país, quando o fito não é atingir objectivos pessoais, é mais útil bater de frente e surte mais efeito. A reacção imediata é normalmente má, fica-se com má imagem, não se retira benefício pessoal, mas a semente fica. Usando habilidades de trato, pode-se alcançar mais simpatia, mas perde-se o essencial. E não é verdade que se consiga o essencial com meias verdades, angariando simpatias para a "causa", indo na onda, ou alinhando em tribos. Essa é a fórmula certa de diluir o interesse do país, o bem público, tirando-lhe força em benefício da paz podre proveniente da harmonização de interesses instalados. O caminho independente, com recusa de jogo viciado ou corrompido, é mais espinhoso, mas o mais viável para construir qualquer coisa válida - mesmo que não seja visível aos olhos de mais ninguém. Além do mais: à medida que passam os anos e se ganha calo, as reacções más e as rejeições deixam de ter tanto peso. Tudo se torna menos difícil ao ser-se mais independente.
- Matemática. Como qualquer mulher reclamo atenção do homem com quem partilho a vida e que ele dê a volta ao mundo em pino para me agradar. No mínimo. Se não, não presta. As mulheres são muito fáceis de contentar: querem o impossível. Como sou afortunada ontem o Nuno surpreendeu ao comunicar que me vai dar luzes de matemática. Fiquei a olhar para ele a magicar: como é possível que saiba mesmo dar a volta ao mundo em pino? Para cada mulher o impossível será uma coisa diferente. Para mim, umas luzes de matemática podem significar isso mesmo. Com dificuldade na lógica e abstracção preciso de materializar os cálculos para os entender. Na impossibilidade de os ver, ao menos conceber como são. A principal razão da dificuldade da lógica é entender a questão enunciada. A coisa vem da escola primária (ou da pré-primária?), na qual havia um carrinho de madeira com pauzinhos para nos ajudar a contar e somar. Depois tiraram o carrinho dos pauzinhos e deixaram de nos autorizar a contar pelos dedos. Céus, como fazer contas sem pauzinhos nem dedos? Naturalmente estou a exagerar e seria escusado dizê-lo, mas nunca se sabe quem lê e o grau de literalidade das possíveis leituras. Em suma, o importante é saber o se está a calcular.