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15/02/2023

Recapitulando




Elos de conhecimento


por Isabel Paulos, em 28.04.22

 




Pode dar ideia que misturo ideias tirando ilações erradas, mas talvez não seja assim. Das coisas que mais gozo me dá é ver gente nascida por exemplo na segunda metade da década de 90, agora na casa dos 20, a declarar-se apaixonada pelo talento de grandes músicos do século passado já desaparecidos e, em muitos casos, afastados das lides públicas já aquando do nascimento destes mais novos admiradores. O papel dos pais e outros familiares é neste campo essencial. Por vezes o conhecimento chega por outras vias: gente que se vai cruzando na vida dos mais novos - veja-se o caso dos professores -, que dá os lamirés necessários para o despertar da curiosidade. Quem fala de música, fala de literatura, pintura e demais artes. É uma delícia ler comentários das entradas no Youtube vendo a confluência de várias gerações num mesmo espaço irmanadas pelo gosto do que é bom – pena não ter muito tempo.


Ao longo da vida lidei com pessoas – entre muitas outras, felizmente – que desdenhavam, tantas vezes ridicularizando, o gosto dos mais velhos nas mais diversas áreas. Desde a gastronomia, à moda ou à música. O cliché do conflito de gerações - tema muito na moda quando era novita - mina o que se pode concluir deste desdém. Justificá-lo apenas com a natural evolução e necessidade de modernização, atirando o antigo para o campo do anacrónico quando não defeituoso ou nefasto, é a fórmula certa de deseducar os mais novos. A natural necessidade de afirmação e demarcação das novas gerações e o seu contributo como sangue novo, ímpeto e rasgo não faz esquecer que não há verdadeira abertura de espírito, evolução e civilização sem conhecimento e respeito pelo passado. Convém fazer perceber que não nasceram de geração espontânea tal como todas as descobertas - tantas vezes apresentadas como inquestionáveis achados dos novos tempos - não nascem do acaso, mas da linha contínua de contributos de gente muito válida das gerações anteriores - às vezes ostracizada pelas elites actuais por desencontros ideológicos com os lugares-comuns em voga no presente. Confirmei ao longo da vida que quanto mais desconhecedoras e desrespeitadoras do antigo são as pessoas, mais ignorantes ou certas da bondade dos valores que vingam no presente estão, e mais fáceis de manipular na adesão inconsequente às modas ou falsas contra-modas, tantas vezes inchadíssimas ao invocarem a ciência e a erudição (da treta) para efeito.


Isto não obsta a que reconheça que viver com a cabeça no passado e a falta de capacidade de compreensão do presente e novo conduz a uma certa alienação. Como em quase tudo, o meio termo faz a virtude.


Batendo numa das teclas habituais das Comezinhas, isto é, continuando a ser chata como a potassa ou chata como a ferrugem (assim me diziam em pequena), acrescento que a má fama do que é antigo funda-se também no mau exemplo da prosápia de muitos ditos connaisseurs que rejeitam e desprezam as abordagens desempoeiradas, os registos despretensiosos e o uso de plataformas e suportes mais modernos onde o conhecimento pode ser disseminado, utilizando-os à socapa em proveito próprio para robustecer as ideias sem pagar o devido tributo. Trata-de de gente e grupos que mais do que conhecimento buscam auto-gratificação, pose e auto-promoção. Em muitos casos apesar da aparência pouco valem como transmissores de pensamento, ciência e arte.


Mais uma vez: se tudo isto parece evidente e básico para tantos, para quê perder tempo? Por uma razão simples, o que parece lana-caprina a uns, não é imediato para outros. Dir-se-ia que a rejeição da pompa pelos mais novos ou desempoeirados é imediata não precisando de alerta e que qualquer indivíduo adulto medianamente inteligente percebe a importância do passado sendo escusadas as linhas naïf que dediquei ao assunto.


Há contudo um aspecto que vejo sempre bastante esquecido: o escusado hiato entre mundos díspares. Numa sociedade que se diz muito tolerante e plural, na qual toda a gente parece ter opinião e ser ouvida, a questão base fica por resolver - chegar ao outro não é apenas deixá-lo exprimir o que pensa e sente. É respeitar. É integrar no seu o que é válido no pensamento do outro não batendo o pé por ignorância militante, necessidade de afirmação, vontade de achincalhar ou por perceber que o conflito fútil rende dividendos reputacionais ou venais. Enquanto estrategicamente se confundir respeito com pensamento único, fazendo-o confundir com aquilo a que se chama respeitinho, aproveitando para o fazer cair no ridículo, não se percebe o essencial.


É também aqui que reside a causa da incultura e atraso da sociedade portuguesa, muito mais do que nos lugares-comuns sempre atirados para a discussão: o atraso económico do país, a falta de meios na educação, a falta de hábito de leitura. Nem o país é pobre, nem as dotações para o ensino são parcas, nem os miúdos lêem tão pouco (e não vou entrar na discussão estéril e também falsa da qualidade da leitura) quando comparados com as gerações anteriores. Enquanto vingarem a aparência, os clichés sobre os benefícios da leitura disseminados por gente que se percebe não entender o que lê, beatificando o ritual e a imagem em vez do lógico e real não vamos sair da cepa torta. O país beneficiaria sim, se os pretensos sábios nas mais variadas áreas profissionais descessem dos pedestais infundados e percebessem que a democracia (ai, credo, democracia escrita em minúscula) não existe para favorecer os mais fortes nos dotes de retórica e na capacidade de agremiação e auto-promoção, mas para dar a oportunidade a todos de viverem melhor e em liberdade, o que só se consegue com acesso generalizado e igualitário ao conhecimento - não confundir com acesso às peanhas da bazófia e do estéril, os bens maiores por que tantos se engalfinham em Portugal.


À devida escala todos os indivíduos são elos de conhecimento, por parco que seja. E quanto mais humilde se é a mais gente se chega. Como dizem as empregadas domésticas companheiras de viagem de autocarro, com quem muito aprendo: não levas o dinheiro para a cova. Nem a bazófia, acrescento.