Depois de horas de pura pasmaceira, cá estás tu. O tempo que ficas parada a pensar na morte da bezerra daria uma outra vida. Talvez um terço da tua esperança de vida na proporção do tempo acordada - talvez seja exagero, mas dá a ideia que é muito, e é de facto. Quantos feitos poderias ter alcançado nesses anos de suspensão? Estás a escrever de rajada, sem planear esta entrada que saiu no momento só por teres reparado nisto: anunciaste que escreverias em seguida e ficaste parada mais de uma hora - depois de outras duas paradíssimas. Há vidas difíceis. Quando, até aos trinta e poucos, demoravas horas a adormecer, ficavas assim nessa letargia física, mas sempre mentalmente viva. Uma canseira, ufa. Quantos assuntos poderias ter estudado à exaustão?, quantas centenas de livros podias ter lido?, quantas centenas de filmes e séries podias ter visto? Quantas decisões imperativas poderias ter tomado?, quantas acções podias ter empreendido? Quantos livros poderias ter escrito? Dá ideia de arrependimento? Pois, ele é zero. Sabes hoje que a cera que fizeste toda a vida construiu o que és. Nem melhor nem pior do que és. Podias ser melhor? Pois, com certeza. Podias ser pior? Sem dúvida. Uma coisa é certa: não serias o que és nem o que sentes e disso não arredas pé. Teimosa como uma mula.
Depois aprendeste a adormecer assim que cais na cama. E a arranjar espaços solitários ao longo do dia para voltares a esse sossego contigo mesma. Nem gostas muito que falem contigo nesses momentos. Tens de te conter para não responderes torto. Precisas do teu espaço, tempo de solidão para conversares contigo. Para pensares sem interrupções. Tempo nada sofrido, antes pelo contrário. Essa é a regra. Dás-te muito bem contigo mesma. Claro que houve momentos em que não eras assim. Momentos de doença. E há momentos pontuais em que voltas a amuar contigo e à sensação de incompreensão dos outros. Cada vez menos. Toca a todos e convém aprender a lidar e saber ultrapassar as contrariedades da vida. Claro que dizes isto hoje, assim leve, por estares bem-disposta. Noutro dia pintarás o quadro menos cor-de-rosa. Mas a bem da verdade tendes mais para a alegria do que para a negritude. Não tens muita pachorra para grandes tristezas. Mal te vais afundar nelas, cansas-te. Cansas-te com facilidade. Será feitio, uma questão de enfado e gosto pela mudança. E como dizem as tuas colegas de trabalho: quem muda, Deus ajuda.
Tudo isto é fácil dizer se preenchidos certos requisitos básicos do bem-estar. Possuir trabalho e independência económica, independentemente das frustrações que sempre existem. Bem te lembras que a fossa mais fossa (à moda brasileira) onde te enfiaste teve a ver com a angústia de te achares incapaz de sobreviveres independente sob o ponto de vista económico. Achares-te incapaz de te sustentar, projectando-te num futuro negro e solitário. Nem gostas muito de imaginar a hipótese de estares sem emprego – e não é que não seja provável, mas haja fé no futuro. Viver em paz e confiança com a pessoa com quem divides a vida. Poderes dizer o que pensas e sentes sem medos de ser mal interpretada ou incompreendida. Bem te lembras como era guardares para ti mágoas e sonhos e de quanta insegurança isso te trazia. Viver com confiança e a cumplicidade de quem te quer bem e se preocupa contigo e a quem queres bem e com quem te preocupas confere propósito e tranquilidade ao quotidiano, independentemente de todas as contrariedades presentes e dúvidas quanto ao futuro. Haver saúde e bem-estar entre os familiares e amigos. Haver bom ambiente de trabalho. E estás numa fase na qual estes factores parecem confluir pela positiva. Agora, uma parolice: apetece-te bater na madeira para que esta paz não se desfaça – fazes mais gosto em ter aprendido estas pequenas superstições do que nas grandes ilustrações para as quais, apesar de toda a curiosidade e pontual interesse, nunca terás tempo suficiente, por estares ocupada a devanear e a viver contente.
Não era nada do que está para trás que ias escrever. Se bem te lembras o aspecto do umbigo que ias tocar era outro. Puxando pela cabeça, por te haveres esquecido. Um compasso de espera. Coças a ponta do nariz, a cabeça, o cantinho do olho direito. Sobes os óculos com o indicador. A Smooth diz que é “a melhor companhia enquanto trabalha” e ris-te sozinha: se isto é trabalho vais ali a já voltas. Ah, é isso: perfeccionismo e medo de desagradar. É uma recorrência: será que o medo de avançar (para quê?, avançar para quê, se toda a vida foi um contínuo?) se prende com perfeccionismo e vontade de agradar. A primeira é mais fácil de chutar para canto. Nunca foste perfeccionista, caso contrário não serias o monte de imperfeições, distracções e pequenas despaciências que és. O perfeccionista combate com disciplina e método a preguiça e as imperfeições. Não tens estas qualidades. Ponto. Medo de desagradar. Bom, aqui a doutrina diverge. Ris-te. Sim, queres agradar, procuras ser simpática com todos (salvo sob reacção ao que te aborrece ou fere), mas não perdes uma oportunidade para desagradar se isso te puser em paz como o que és. Querer agradar é humano. Mas não a qualquer custo. Produzir uma imagem ou pensamento agradável contra o que pensas e sentes não é de todo teu timbre. Agora juntando a ideia da eterna dúvida e hesitação que confere a tal aparência de busca da perfeição e vontade de agradar a todos. Não é. Desde criança não consegues ficar-te por uma ideia isolada. Ao pensamento acorre-te sempre pelo menos a afirmação e a negação, a luz e a sombra. Desde criança à ideia vem-te sempre um novelo. Nunca foste pragmática, senão por obrigação de sã convivência. Tinhas de viver, tinhas de decidir, por isso andaste para a frente indo e decidindo às vezes com grande desembaraço outras de modo mais desajeitado, mas sempre na dúvida. Na dúvida se tinhas feito bem, escolhido bem, dito bem, escrito bem, respondido bem. E a dificuldade não estava necessariamente entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. Não há aqui perfeccionismo. Nem o problema é o de agradar. Está além disso: sempre foi uma monumental dúvida íntima. Eterna dúvida e eterna insatisfação com que aprendeste a viver, começando a entender que o teu maior medo é o de fugires ao que acreditas, ao que consideras verdade, ao que és. Se estiveres enganada, estás tramada. Cai tudo por terra: cais tu própria. Uma aposta furada. Ou não. Uma mão cheia de nada. Ou não. É um risco viver.