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27/04/2022

Diário

Acordei bem-disposta. Resultado de quase nove horas de sono. Nos últimos dias andava a esticar-me nas desoras, a estragar a disposição. (who cares?, lá vem a fulana com estas tretas insignificantes de intimidade que não adiantam nem atrasam a vida a ninguém senão a dela; falta de noção do ridículo e grande umbigo; não se tocará?, arre.) Só o facto de não apressar a rotina da primeira hora da manhã, não ter que fazer o café a correr, a praguejar, não ficar furibunda por me esquecer da meia hora de antecipação do primeiro comprimido do dia (agora são 8 diários) sobre o pequeno-almoço e sair de casa a horas para chegar só um pouco atrasada já faz melhorar o dia. (interrompi aqui o texto há três horas para tratar das tarefas que me competem – é para isso que me pagam - e agora já não sei o que ia escrever; seca.) Bem, os tempos não estão para alegrias, haja em vista os sinais de conflito e tensão nos mais diversos pontos do globo, porém o facto é que fiquei contente por tirar o guarda-chuva da carteira (gosto de chuva, mas não de carregar o chuço) e o sol está a dominar as nuvens com breves interrupções. (creio que ia referir a minha infantilidade, mas já não sei a que propósito, pelo que fico na dúvida de atirar a coisa assim sem contexto.) Cabeça-de-alho-chocho, chamavam-me em pequena quando como sempre chegava atrasada ao carro de manhã sem livros nem casaco. Agora ponho o casaco na cadeira do +1 e durante semanas seguidas visto o mesmo (tal como calço os mesmos sapatos e uso a mesmíssima carteira). Julgo que há quem note e ache a coisa no mínimo estranha neste mundo onde se gasta imenso tempo a pensar nos trapos a vestir até para ir trabalhar. A imagem, ai a imagem. Que seria deste mundo moderno sem a imagem? Vá, mas hoje também dei por mim a reparar na dentuça – é o que dá levantar-me a horas. Ao fim de três meses de uso dos alinhadores já começa a estar um nada melhorada – mais um ano e fico de novo com os dentes bonitos. Ah, lembro-me que ia mencionar que a carga elevada de mimo de que sou portadora (não tenho culpa, reclamem com os meus que me carregaram e carregam dele) se nota na forma um tanto ingénua de escrever. No fundo é o que dá cunho ao resultado (olha a pretensão, céus). Ajuda também alguma falta de vergonha e inconsequência – há quem lhe chame estupidez -, que fazem com que não precise de lançar mão do hermético, da ficção ou outra máscara para disfarçar o extravasar do que vai dentro. Nem esconder o que sou, por mais infantil que a forma seja. É a rejeição total ao asséptico e sem graça tão apreciado, valorizado e elogiado pelos ilustres (vaidosa a menina hoje, hein?). Mas sobretudo a consciência de que viver em permanente cálculo e em bicos dos pés na forma e substância valorizando o aparente rigor, a ironia forçada, o rebuscado, o supérfluo e a ambição revelam existências vazias. O outro que tanto aprecio era o Poeta Militante, fico-me pela ingénua militante. E sabe tão bem.


Acrescento: na paragem de autocarro à hora de almoço levei um forte encontrão de um homem. Estava isolada, bem fácil de contornar. Não pediu desculpa, pelo que não foi distracção. Não percebi se estava bêbado ou drogado, ou se simplesmente seria tolo. As pessoas à volta fizeram os comentários habituais - olha, olha, ele há cada um! -, limitei-me a ficar com o ar de parva natural. Seguiu a gesticular e só em casa fui ver a carteira para ver se não tinha sido técnica de larápio. Mas não, devia ser mesmo só maluco. Aquele poiso parece íman de tolos - acabei de elaborar uma tese: há zonas da cidade mais propícias a atrair malucos.