Muitas das lenga-lengas ideológicas a propósito por exemplo da música são anedóticas. E quem diz música, diz pintura ou literatura. O branqueamento da realidade passada em beneficio do endeusamento dos bens amados vigentes é um exercício de pura desonestidade. Mas é isso que vinga. A verdade fica sempre mais escondida e recatada, apesar da moda dos ardilosos polígrafos, que prescrevem aparentes verdades. O que interessa é fazer associações primárias ou falsas para defender os privilegiados do regime que se dizem todos muito solidários com os desfavorecidos e oprimidos, mas de modo que não os faça parecer anacrónicos - dizem-no numa retórica moderna e sofisticada que sou incapaz de reproduzir. Essas ladainhas de sucessivas efabulações disseminaram-se na sociedade de tal modo que os últimos se convenceram de tais "verdades" suportando com ignorância e voto o status dos primeiros. Até ver, começam a desconfiar.
Não há sentido crítico de espécie alguma, mas apenas mexerico e maledicência para entreter elites de fancaria e populaça, que têm vivido em profunda harmonia nesta paz podre pronta a explodir.
Não há concessões ao sensato, não há respeito pela verdade multiplicando-se à exaustão as historietas de evangelização e as lavagens cerebrais com milhões de notícias ditas muito factuais e opiniões fofinhas plagiadas - passadas a papel químico neste tempo insano em que não se ousa parar e pensar. Condena-se sumariamente todo aquele que disser o razoável caso não vá ao encontro dos estreitos quadros mentais que suportam os mitos em voga. Além de se enxovalhar quem chame a atenção para o perigo de visões únicas e para a iminência da substituição destas efabulações por outras mais perigosas, às quais muitos aderirão por cansaço e desconfiança da mentira. A menos que se comece a respeitar de facto e não através de aparente tolerância as visões e aspirações legítimas que vão sendo abafadas pelo ruído da evangelização, muitos quererão substituir engodo por engodo por necessidade de arejo e os chicos-espertos do costume que dominam os jornais, blogues e redes sociais e o espaço público de opinião estarão agarrados como lapas aos confortáveis postos do regime actual até ao dia em que este cair e passarem, com enorme convicção, a grandes educadores no novo sistema. São os sempre em pé, disfarçando-se de grandes democratas e defensores do pluralismo enxovalham todos quantos não pertencem às tribos de interesses ou não aderem à visão única do momento ou tão só aos que se mostrem um pouco mais rectos não usando maginâncias em política e que poderiam ser salvação ao extremismo, preferindo elogiar a inteligência e sagacidade política dos oportunistas, alçando-os à governação. Alegam que de forma perspicaz se limitam a relatar ou descrever factos, camuflando a forma como, associados e encostados em tribo alargada que debita a mesma oração diária nos espaços públicos, evangelizam a opinião pública condicionando o voto. E cheios de prosápia chamam a pessoas como eu radicais, aconselhando-as a se quiserem ser consideradas vergarem-se aos argumentos dos iluminados. Têm o Governo que quiseram e merecem: bem à imagem da elite rasca e pretensiosa que doutrina o país.