Uma história da maçonaria: pilar do mundo moderno ou “quatro séculos de excentricidade masculina”?, de José Carlos Fernandes, no Observador.
The craft: How freemasons created the modern world (2020), de John Dickie, que chegou a Portugal com o título A maçonaria: Como os pedreiros-livres construíram o mundo moderno, pela mão das Edições 70 e com tradução de Jaime Araújo, fica mais para o lado do balão vazio: o livro sustenta-se num sólido trabalho de pesquisa, revela poder de síntese, está escrito de forma fluida e clara e proporciona uma leitura agradável e proveitosa, mas fica muito aquém de persuadir o leitor de que a maçonaria desempenhou na construção do mundo moderno um papel mais decisivo do que o agrafo.
[...]
A maçonaria no século XXI
Estas questões tornam-se mais pertinentes quando, por outro lado, se percebe que, nas 400 páginas desta história da maçonaria, o autor é incapaz de enumerar contributos objectivos e positivos da maçonaria para a sociedade ao longo da sua história de 400 anos. Que aportou ela ao progresso tecnológico e científico, ao bem-estar, ao combate às desigualdades sociais?
É certo que algumas lojas contribuem para obras de beneficência – por exemplo, a veneranda United Grand Lodge of England, descendente da pioneira loja fundada em 1717 em Londres e que continua a ser a mais relevante obediência maçónica da Grã-Bretanha, proclama no seu website estar entre os principais contribuintes neste domínio, apontando um total de 51 milhões de libras em doações em 2020. Porém, há na Grã-Bretanha pelo menos 40 instituições cujo contributo para acções humanitárias é superior. Fica-se, pois, com a ideia de que as obras de caridade são um aspecto secundário da maçonaria – e a verdade é que Dickie praticamente não as refere no livro.
Algumas lojas maçónicas reclamam ter desempenhado importante papel na luta por conquistas civilizacionais, como a abolição da pena de morte e da escravatura, mas a verdade é que estes assuntos dividiram os maçons (como dividiram a sociedade), não podendo afirmar-se, que a maçonaria fosse genericamente pró-abolicionista – talvez por esta razão, Dickie também pouco ou nada diz sobre o assunto.
Embora diferentes pessoas possam buscar coisas diferentes na maçonaria, o seu propósito principal parece continuar a ser permitir aos seus membros “estabelecer extensas redes de contactos e fazer amigos influentes” (Dickie). Mas para que serve esta angariação de extensas redes de contactos e amigos influentes se não for para obter um favorecimento pessoal, ainda que dentro dos limites estabelecidos pela lei? Espanta-se a maçonaria por suscitar na sociedade um sentimento de desconfiança, reforçado pela aura de secretismo que caracteriza a instituição? Poderá alegar-se que o secretismo da maçonaria tem apenas uma função ritual e é inócuo, mas compreende-se que possa ser olhado com suspeição num país democrático onde existe liberdade de expressão e de associação. As redes de contactos e o secretismo da maçonaria tornam-se ainda mais dissonantes num tempo em que existe uma pressão da sociedade e da opinião pública para que o Estado se reja por regras transparentes, isentas e meritocráticas – ora, como se aceita que a legislação impeça que o titular de um cargo público celebre contratos entre o Estado e uma empresa detida por um familiar seu mas não se preocupe com a possibilidade de tala empresa ser detida por um Irmão maçónico do titular do cargo?
Sublinhados meus.