A dúvida assalta sofrida. Qual o teu real valor? Há mais qualquer coisa, ou não? Nada passa de um entretém fútil de 50 ou 80 anos. Há algumas horas pensavas como passaram 40 anos desde as memórias em que tropeçaste ao acaso. É tanto tempo. Quantas vidas cabem numa? Quantas angústias e alegrias? É um longo e sofrido caminho por mais momentos de contentamento, de pequenos prazeres e descobertas. Será que não sabes dar valor à imensidão de privilégios que a tua vida foi acomodando? Será apenas isso? Porquê essa eterna sensação de estar aquém, esse choro interno contínuo de fracasso? Aquém de quê? Tens-te acaso por uma sumidade com raízes profundas, capaz de surpreender e deixar pegada? Quanta pretensão. Será a dor da derrota o merecido castigo para ambição tão infundada? Por que não te fazes à vida sem considerações maiores? Não sabes ocupar-te da vida de molde a que a dita te tome por dona e te convenças que a domesticaste. Seria tão mais fácil se aceitasses a vida pela aparência, se não precisasses de explicações para tudo quanto acontece nas entrelinhas da existência - a razão suprema.
Querias-te compreendida ou reconhecida? Nos momentos felizes haveriam de coincidir. Não te ressentes de falta de estridência. É de sentido. Será que não há razão fecunda para que viesses ao mundo? É tudo tão pouco, és tão pouco.
Nada disto é testemunho de desespero, sequer sinal de proximidade de desistência. É simples constatação da levíssima tristeza que assalta a alma de quem não passa pela vida de ânimo leve e se comove com a existência.