Há umas décadas acreditaram que tinha nascido um novo país, que ajudaram a construir. Um mundo verdadeiramente democrata, onde todos teriam voto na matéria e possibilidade de expressar livremente a opinião. Em festa e imbuídos de cândida crença no aperfeiçoamento da natureza humana convidaram todo o bicho careta para as suas empresas, instituições, projectos, mesas de jantar, para a sua vida. Favoreceram-lhes a progressão na carreira, na vida social e até na pessoal. Educaram-nos, mostraram como se fala, como se escreve, como se está, esquecendo-se de reparar num pormenor de grande importância: tudo isso pode ser aprendido memorizado por mero mimetismo sem qualquer sentimento de respeito pelo outro, sem o lastro que só o tempo e o carácter formam, base de qualquer sociedade civilizada.
Agora levam com estes seus petizes de fancaria, entretanto envelhecidos nas doçuras da vida fácil de quem foi apaparicado pela nata do país, a roerem-lhes os calcanhares como cãezitos raivosos mortos por herdarem o estatuto de grandes democratas. O cheiro das cadeiras do poder e da influência deixa-os nervosos.