Depois de mais um dia bom de reunião familiar com mãe, irmãos e sobrinhos, chegada a casa e sentada no sofá na sornice pensava no que poderia escrever e veio à ideia a herança do outro que sempre carregamos. A ligação ou contacto a quem connosco se cruza, seja mais ou menos próximo, sempre nos deixa marcas, memórias, perplexidades. As particularidades e susceptibilidades de cada um. Aquilo com que afinam sendo total surpresa para nós, o que nos ensinam, as portas abertas para mundos que desconhecíamos. Estar com os outros é um dos grandes tesouros da humanidade, por mais insignificante ou breve possa parecer o contacto.
Lembro-me de um tio avô por afinidade em casa de quem almocei algumas vezes no primeiro ano da faculdade. O convite chegou, como outros de tios e primos mais chegados, por serem casas próximas da universidade. Lembro-me do primeiro almoço, da salinha de estar que fazia ante-câmara para a de jantar e do almoço a dois. A minha tia, ela sim de sangue e por quem eu não nutria particular simpatia, ou não estava ou chegava sempre num horário em que eu já me encontrava de saída. Nesse primeiro almoço quando entrei encontrei o tio em pé com um livro na mão, como tantas vezes o vi e imagem que sempre reterei dele. No caso era um dicionário epistemológico de nomes e o dedo a apontar para Paulo. O tio Z. P. gostava do meu pai e queria fazer-me sentir o respeito e admiração que tinha por ele - não me queria deixar só com singela tradução de pequeno ou baixo. Era um absoluto excêntrico e como tal um desregrado bem vincado, conhecedor de música e poesia. E os Natais em sua casa acontecimentos épicos que fico sempre na dúvida se presenciei ou se guardo na memória pelos relatos que me eram feitos em criança pequena. Naquela casa privilegiavam-se as artes e um modo de vida bem diferente do que estava habituada. Almoçava sempre vidrada na graça e vivacidade da sua conversa. Por vezes estavam mais comensais; em geral, um ou outro dos meus primos. Um dos repastos foi partilhado por arquitecto amigo e a conversa versou sobre uma viagem à Rússia. Recordo-me de apesar de já não ser criança me sentir como Jesus entre os doutores, episódio bíblico para o qual a avó cedo me despertara a atenção, ao ver-me interessada por longos períodos nas conversas dos adultos. Naturalmente, com a nuance de os meus interlocutores não terem razão para ficar admirados com a minha inteligência, mas eu sim com o seu conhecimento.
Num registo completamente diferente lembro-me de num qualquer baptizado ou comunhão celebrado por outro ancião, no caso primo e grande amigo da minha avó materna, padre jesuíta de inteira vocação. Também foi o tio, como lhe chamava, que me fez a primeira-comunhão, mas a melhor memória que guardo é de na tal reunião familiar dar por mim a fazer parte de um círculo de miúdos atentos às suas histórias. E sempre que me lembro dele penso numa parede de tijolos. Irmão de outros jesuítas, não era considerado o intelectual, antes pelo contrário - esse lugar fora destinado ao irmão mais entrosado na vida de Roma. Ele dirigia apenas uma pequena e despretensiosa revista Católica, que recebíamos em casa mensalmente já que a avó pagava a assinatura aos afilhados. Na penúltima página tinha palavras cruzadas muito fáceis e as diferenças, dois dos meus entreténs mensais em criança. Havia também meia-dúzia de anedotas inofensivas, destacadas na contra-capa, se a memória não me falha. Era um humor fácil e isco da fé. O grosso do teor da revista era feito de testemunhos de esperança - histórias de dificuldade superadas ou pelo menos vividas com fé. Coisas que não se usam nos dias de hoje já que a psicologia, a reivindicação e as bandeiras identitárias substituíram a esperança, a resignação e o fervor religioso. O muro de tijolos que recordo fora a alusão ao perigo do ócio numa das histórias que contou naquela ocasião em que eu era pouco mais que uma criança ouvindo-o entre outros com curiosidade. Mais uma noção verdadeiramente deslocada do tempo presente, já que tantos associam a censura do ócio a uma religiosidade ignorante e perversa pugnando por vidas com mais sentido e tempo para se dedicarem a intelectualizar o mundo ou a aproveitar sem reflexão os frutos da existência. Na verdade nunca deixei de pensar como o tio F. cuja história se referia a um ex-presidiário com quem lidara numa das suas obras e à necessidade imperiosa de que estivesse ocupado, nem que fosse dando-lhe tijolos para construir uma parede. Em muitos momentos de maior fragilidade psicológica sinto essa necessidade forçosa de ter tijolos para colocar um sobre outro e tal perspectiva sempre me deu alento. Não procuro o sentido da vida em intelectualizações tantas vezes vãs, mas das tarefas comezinhas. Atitude totalmente fora de moda, bem sei.
Este trecho está bastante atabalhoado, mas vai ficar assim. Vou integrá-lo nos fragmentos das Tílias já que é um apontamento familiar - talvez o corrija mais tarde - e irei tentar num postal independente alargar a ideia inicial a um número substancialmente maior de pessoas que fui conhecendo, uma vez que não fiz inteiramente jus à intenção primeira de contar como os outros me surpreenderam.
Escrito a 16-04-2022
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Da mesma saga existem os seguintes postais:
Fragmento 1. Tílias - Rua N. S. de Fátima
Fragmento 2. Tílias - Compor os Sonhos
Fragmento 3. Tílias - Brilho e Falsidade
Fragmento 4. Tílias - Rua General Torres e Brasil
Fragmento 5. Tílias - Filha e Maternidade
Fragmento 6. Tílias - 11 de Setembro 2001
Fragmento 7. Tílias - Chave em Christchurch
Fragmento 8. Tílias - Maçãs e Batatas
Fragmento 9. Tílias - Jerusalém há 2000 anos
Fragmento 10. Tílias - Avó
Fragmento 11. Tílias - Virinha
Fragmento 12. Tílias - Sonhos
Fragmento 13 - Tílias - Livros da Infância
Fragmento 14 - Tílias - Café
Fragmento 15 - Tílias - Cozinhotes