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18/05/2023

Em português mexilhão

Fico com a sensação de ser a única a não perder um minuto de atenção com a Comissão de Inquérito à TAP. Salvo quando muito distraída a televisão berra miudezas enquanto almoço e janto interrompendo-me o mais importante: a conversa caseira. Ou quando leio títulos de jornais (nestes dias é muito recomendável não abrir os artigos e sobretudo crónicas). Ou quando leio amigos ou pessoas que respeito nos blogues. Ou quando falo ao telefone com familiares que me vão dando lamirés sobre o que se passa. Isto é, mesmo não querendo saber, apanho com a CIP na tola a toda a hora.


Socorro. Aí vem conversa de café. Podem (ai a conjugação do verbo) fechar já esta página que daqui não levam sapiência nem intrincados pormenores sobre as minudências dos factos, das provas e das leis, apenas bitaites em português mexilhão. As comissões de inquérito têm sempre a mesma lógica, desde que tenho memória, desde a de Camarate, passando pela do Banco de Portugal (a esse brilhante político premiado na Europa pela extraordinária competência, Victor Constâncio) em 2008 e pela do BES em 2014/2015.


Pingue-pongue puro. Lata e impunidade transcendental e montra de vaidades transvestida (obrigada Sócrates, sabia que me havia de ajudar nalgum momento da vida, foi hoje) de apuramento de factos e factinhos. Resultados visíveis: uns quantos falsos ais e uis de indignação de adversários políticos e sound bites para a comunicação social que depressa dissemina entre nós, os lorpas, conteúdo para graçolas ou comentários mais sérios mas sempre inconsequentes. Porque o país, esse, vai continuar (com um toque de adivinhação) a aceitar as conclusões de aparência das comissões de inquérito. E continuar a premiar a irresponsabilidade, a incompetência, a lábia e a desonestidade.


Não sei porque não acreditam em mim: somos mais desonestos do que honestos. E quando é assim a montanha pare sempre um rato.  Só mudam os ratos. Os factos verdadeiros que interessam ficam em regra por revelar e ai de quem se atreva a mencioná-los porque está a lançar rumores e boatos. São só bocas de gente azeda e destemperada. É assim desde Camarate. Só sobra o conveniente à manutenção da podridão. Chamam-lhe sensatez, quando não mesmo: rigor - ironia das ironias.


Mas já sabem (ai credo, devia estar na segunda pessoa do plural): aqui só há conversa de taberna. Não percam (ai  credo, outra vez) tempo. Estejam atentos, vejam tudo, liguem as televisões todas das vossas casas, oiçam todos os comentadores, as notícias nas rádios, leiam os jornais de fio a pavio, os sagrados polígrafos, sigam os vossos gurus no Twitter e outras redes sociais, sejam informados, não percam pitada, e expressem as vossas angústias circunstanciais todas. É uma forma como outra qualquer de passar a vida. Eu cá cada vez mais prefiro as conversas caseiras e intimidade. Menoridades e dúvidas existenciais.