Esta manhã andarilhei como de costume ao vir trabalhar. Ao passar na Igreja de Nossa Senhora de Fátima vi estar aberta – reparo sempre haver um dia da semana em que a porta está aberta, mas nunca fixei qual o dia. Será sempre às sextas? Não sei. O certo é que entrei e lá estive talvez três ou quatro minutos. Tentei rezar as três únicas orações que consegui fixar na vida – foi uma ateia que me deu catequese em criança e sempre tive péssima memória, pelo que está explicado -, ainda assim saíram todas baralhadas. Menos baralhadas foram as negociatas desonestas que fiz com Jesus Cristo e Nossa Senhora – os meus olhos ainda demoraram a encontrá-la, apesar de estar bem visível. Também chamei Deus à negociata olhando para a abóbada – tudo muito visual e previsível, sou básica nestas e na maioria das coisas. Basicamente pedi que me desenrascassem dos nós que dou à vida e a vida a mim. Embaralho-me toda. Em suma, pedi o melhor dos mundos. A solução perfeita. E ai deles que não tratem de me ajudar - este desaforo é mentiroso, sou muito mais bolinha baixo do que se possa pensar, que isto é gente para me fazer passar as passas do Algarve, e tenho-lhes muito respeitinho. Já não entrava numa Igreja há muito. De vez em quando lá me dá para o fazer em memória dos tempos antigos, ou para agradecer qualquer coisa. Ou para pedir (a isto chamo negociata desonesta). Da última vez não fui atendida nem de perto nem de longe. Levei uma banhada de todo o tamanho. Só me fazem desfeitas, é o que é. Mas não consigo ficar zangada. Talvez por ter sido educada a respeitar e aceitar as contrariedades. A verdade é que apesar de me ter declarado ateia cerca de 20 anos - entre os 12 ou 13 e os 33 - nunca cortei os laços com esta gente insensível que tem manias e falsos rigores que nunca hei-de entender. Ainda não percebi onde é que os enfio no sentido último do Universo, mas ao que parece têm alguma ligação. São a minha forma mais familiar ou mais antiga de chegar ao dito sentido da vida. Era suposto dizer que me dão conforto, mas não seria verdade. Há inquietude. Invoco-os muito em pensamento, nomeadamente, em momentos de aflição, não sei se por tique se por real convicção. Enfim, sinto-me sempre uma batoteira.
E pronto, foi assim, e agora perdi-me e já nem sei porque contei isto. Devia vir a propósito de qualquer coisa, mas tenho de trabalhar que é para isso que me pagam.
Bom dia. Boa sexta-feira.