
Fora as ocasionais nas décadas anteriores, são 12 anos de regulares idas e voltas Porto-Lisboa. Pela primeira vez reparei que, chegada a Campanhã, não trazíamos o certificado multiusos do Nuno (aconteceu uma vez para votar em eleições). Ainda fizemos uma tentativa de voltar a casa, mas não deu tempo. Com antecedência de 18 minutos liguei para trocar bilhetes. Tive de comprar novo porque demoraram cinco minutos a atender, ou seja, já depois do prazo de troca. Foram três chamadas para recomprar a ida e trocar a volta. As chamadas desligavam-se misteriosamente (a primeira terei sido eu com a orelha, as outras não). À terceira destemperei completamente, tendo sido francamente malcriada. A revolta com os abusos de gente privilegiada tomou-me por momentos. Acabei a chamada a pedir desculpa pela agressividade.
Hora e meia depois chamei um Uber com destino à estação. Preocupada com o facto de ver na aplicação que estava parado numa entrada da auto-estrada, só à sua chegada tive explicação: barraram a entrada para passar um desfile de ferraris, lamborginis e outras bombas - mostrou-me imagens por ter filmado. De qualquer modo, chegámos a tempo.
Um sono, extenuação e frio imensos apoderaram-se de mim na plataforma. Valeu distender um pouco já dentro da carruagem quando um casal mais velho, vendo que à volta só estavam estrangeiros, veio ter connosco pedir ajuda: ah, são portugueses, pode ver aqui [esticando os bilhetes ao Nuno] o nosso lugar? Peguei-lhes, estiquei o braço o mais que podia para conseguir ler e indiquei a carruagem da frente e os respectivos lugares. Agradeceram e seguiram. Diz o Nuno: vieram ao banco certo, não haja dúvida. Ri-me alto, relaxando finalmente um bocadinho.
O revisor já passou e foi extremamente simpático, como são em regra. E agora só me apetece dormir, mas tenho a nuca presa da pressão. Sim, sei. Não é caso para tanto. Mas, e explicar isso à mioleira, desligando o interruptor?