Cavaco Silva discursou na televisão. A pretexto de um qualquer evento de autarcas, mas não prestaste atenção aos pormenores essenciais de quem quer e sabe informar; não é tua função; a ti compete soltar os dedos sem te prenderes aos factos, soltar a mente sem atender ao que é dado. O mais experiente político português (que dizia não ser político e parece ser dos raros com a noção digna do que isso é) disse o que era preciso ser dito por alguém do PSD, deixando apesar de tudo um amargo de boca aos antigos eleitores deste partido: se é precisa a voz de Cavaco Silva é por não haver ainda quem possua o capital de respeitabilidade para o fazer – sim: ao ler isto muitos coçam a urticária anti-Cavaco e lá passará o país umas horas a ouvir as ladainhas soporíferas do costume, mas é bom que tomem anti-histamínicos. Estes meses dos pólenes logo passam e o país precisa de cortar a eito e começar a regressar à normalidade. Sair das insanidades sucessivas, destas tricas e laricas que enchem o espaço público de milhões de opiniões sobre ninharias.
Se o mais calejado político português de primeira linha considera que Luís Montenegro tem condições para enfrentar o trabalho e desafios que nos esperam, poderás reconsiderar – tal como muitos outros portugueses - e começar a prestar atenção nesta última levada de gente (demoraste imenso tempo a escolher o termo para seres o menos pejorativa possível) trazida pela actual direcção do PSD. Não será com entusiasmo com toda a certeza. Mas em política é preciso abstrair.
Quanto às críticas demolidoras, ao zurzir o Governo e ao desafio ao Primeiro-Ministro para que se demita (é assim que comunicação social passa a informação – e repare-se que não estás a fazer juízo de valor, apenas a sublinhar), tudo vai depender de como é passada a informação aos portugueses – se a transmitirem juntamente com a ladainha referida acima (já que agora os jornalistas raramente se atêm aos factos preferindo sempre os julgamentos e a ironia, não resistindo ao papel de comentador criativo) para descredibilizar o antigo Primeiro-Ministro e ex-Presidente da República, António Costa rapidamente chutará para canto e continuará impante a permitir que o país vire esta anedota a que temos assistido da exibição dos artistas gerados ou aperfeiçoados nos blogues e nas artes da pseudonímia - trepadeiras rascas do poder à esquerda e à direita, sempre com péssimos resultados.
Se deixarem a comunicação fluir normalmente entre Cavaco Silva e os portugueses, sem lavagem cerebral, pode ser que estes entendam, e não restará a António Costa outra solução senão perceber a diferença entre ser Primeiro-Ministro e estar à vontadinha na boa tradição socialista da selvajaria. Resta perceber se ainda é possível acreditar na existência de uma geração de políticos não puros, que nunca existiram, mas ao menos uns furos acima desta rasteirice vulgar com que temos lidado.