É aborrecido ser repetitiva, mas aconteceu mais uma vez estar a trabalhar e a magicar um post, embrulhando de tal modo as ideias e actividades que creio não sobrar nada do pensado durante o dia para efeito de blogue. Lá vou parar uns segundos para puxar pela memória. Esperem um pouco, sff. Uma ideia estava agora mesmo aqui e escapuliu-se, a sacana, e era filha única - dói mais assim, quando não sobra nada. Esperem mais um pouco, sff. Se conseguir encontrá-las, elenco-as para ser mais fácil.
Hum, primeira pipoca: a forma como somos (todos) sugestionados e orientados pelos assuntos de actualidade e o pensamento dominante sobre eles, por mais juízo crítico estejamos convencidos possuir. Segunda pipoca: não perder mais tempo a procurar resposta para o que não tenho solução e colocar a questão: será que a voz dominante obedece a algum critério de lógica e tem uma proveniência identificável que exerce controlo ou entramos em roda livre? Vou-me ficar por estes dois itens. Já não faço a mais pequena ideia do que pensei enquanto trabalhava, mas vou tentar escrever ao correr da pena, aliás, dos dedos.
Melhor ou pior conheço muita gente que está em cima do acontecimento. Cada vez há mais gente em cima da actualidade. E também sempre conheci gente que procura desvincular-se do mundo das notícias para sobreviver saudável. Funciona por fases: momentos de mergulho da actualidade entremeados com um certo situar nos interesses próprios para chegar a ter vida sem carregar o peso do mundo às costas. Sim, porque salvo aqueles que vivem o mundo das notícias de modo lúdico-profissional – género jogador de Las Vegas – ou aqueles que sabem relativizar, adequando o mundo da informação aos próprios interesses - género pragmático -, quem tem sensibilidade dificilmente consegue sobreviver lúcido depois de se atolar no mundo da informação ou desinformação. O despejar constante de factos e contra-factos, opiniões e contra-opiniões é atordoador e paralisante, podendo inibir mentes e vidas saudáveis.
Independentemente do modo como protegemos os nossos interesses, do género de cada um - no fundo somos sempre um misto entre o que mergulha a fundo nas notícias e o que delas tira proveito ou guarda distância para prosseguir os seus próprios interesses -, todos sucumbimos em maior ou menor grau às verdades do momento. Quanto mais não seja e na melhor das hipóteses damos por nós a dizer coisas redondas para não enfrentar os ditames da vida moderna. E por mais eriçados se mostrem alguns - os anti qualquer coisa, por exemplo, anti politicamente correcto ou puritanismo na linguagem – numa série de outros assuntos já sucumbiram aos ares do tempo. Cada um guarda ou começa a promover à medida que vai envelhecendo o reduto de conservadorismo que convém, aquele que considera indispensável para se manter à tona social, económica, moral ou intelectualmente.
Mas de onde virá esta voz global dominante que nos põe todos a falar dos mesmos assuntos e, em muitos casos, a criar uma onda de artificial coincidência de opinião ou de barricada? Somos orientados?, como nos dizem as paranóicas teorias da conspiração? Por quem? Desde que o mundo é mundo por quem quer poder e quem quer ganhar dinheiro. A busca de poder e dinheiro e as consequentes lutas e divisões por causa deles sempre dominaram os destinos da humanidade. Nada de novo.
Será uma visão pessimista mas não acredito em grande parte das declarações de defesa de nobres causas no espaço público. O comportamento dos que esgrimem argumentos denota vontade de defender mais a sua esfera de influência – ou da sua tribo - do que benefícios da comunidade. É só abrir os jornais ou ligar as televisões para verificar que toda a gente berra desaustinada frontal ou dissimuladamente – não se pense que quem fala mais alto o faz de modo honesto - pelo seu quinhão de “direitos” e privilégios, estando-se a marimbar para o funcionamento regular da comunidade como um todo. O que vinga é a ganância de parte a parte. Por exemplo, os que defendem um Estado mais forte e interventivo fazem-no na perspectiva de uma vida de regalias sem esforço ou à custa do esforço alheio, os que defendem o Mercado Livre almejam poder impor a lei do mais forte, a lei da selva. Ah e tal, que visão simplista, dizem. Ao que respondo: é só conversar umas horas com uns e outros e estar atento aos percursos de vida de uns e outros para perceber que é disto mesmo que se trata.
Acabei por me perder nas ideias e não falar nas formas de sugestionar populações inteiras, nem no facto de estarmos a cair em roda livre. Fica para outro dia. Hoje não estou capaz. É cansaço.
Na sexta-feira tinha previsto escrever acerca da passagem do tempo como revelação e a facilidade de destruição da imagem ou reputação do comum mortal. Entretanto meteu-se um longo e reles Sábado de permeio (aos que gostam de tentar estragar os dias aos outros, informo que se o desprezo é tão grande, é escusado darem tanta atenção; arranjem uma vida com interesse e logo verão que não precisam perder tempo comigo), fazendo-me esquecer o que tinha intenção de escrever, mais uma vez sem antes estar delineado.
O primeiro item do tempo como congregador de conhecimento, como cola de peças desavindas e desconexas, é a ideia simples da lenta progressão da aprendizagem por contraste com a ostentação de parcelas de verdade momentânea. E não me apetece dizer muito mais do que isto.
O segundo ponto da destruição da imagem e reputação do comum mortal é apenas a constatação da frivolidade reinante no espaço público. O que tem valor não vinga a menos que ceda aos vendilhões da praça. Sempre que surge alguém que questiona as podridões da sociedade e defenda mínimos de dignidade, é vexado e desacreditado através da manipulação retórica. Uma onda de gozo e crítica feitos pelos grupelhos de interesse e influência que dominam o aparentemente sofisticado mercado nacional da informação e entretenimento e com eles as vendas políticas, jornalísticas e culturais. Nunca seremos um país para levar a sério se a voz da mediocridade disfarçada de competência e erudição se sobrepõe e abafa o valor através da manipulação. Seremos sempre um país de faz de conta, de chico-espertos a tentar dar ar de eruditos.
É muito fácil destruir outrem. Ninguém está a salvo de ver reduzida a cinzas a sua imagem e, uma vez que hoje não se distingue uma da outra, ninguém está a salvo de ver destruída a sua dignidade. E para os imbecis ou tontos que vêem aqui uma ameaça e para os que sempre vêem segundas más-intenções, aprendam a ler e a perceber o que lêem, em vez de tentarem mostrar-se muito sofisticados e de se chorarem tanto por não haver leitores em Portugal. A constatação de não haver limites à manipulação da opinião associada aos mecanismos de Inteligência Artificial é assustadora. Já a primeira é perigosa o suficiente, acrescentando as máquinas, o perigo torna-se exponencial. Devia fazer pensar. Todos.
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Vou lendo pela rama o que sobra dos acontecidos. Já que apesar da torrente informativa cada vez temos menos acesso à consciência do realmente sucedido. A todo o momento se criam controvérsias, de tudo se faz caso e casinho sob pretexto de cabal esclarecimento para uso do jogo sujo que já nem é pelo poder formal, mas pelo protagonismo. Expele-se fel em tom de gracejo acumulado por erros próprios que não se assumem nem se corrigem, investindo tudo na construção artificial de imagem de grande tolerância. Cada vez mais se defende ou dá guarida à ideologia cega dominante, ao insulto e à injuria - vendidos como defesa de importantes valores. Cada vez se cava mais o fosso entre a propaganda globalizada e os que a ousam contestar, tantas vezes de forma irracional. As contradições dos segundos são sempre enxovalhadas sem piedade, os absurdos da primeira sempre inquestionados e idolatrados, potenciando esta intolerância conflitos e danos irreparáveis para o mundo. Sem pejo abrem-se alas à divisão da população entre bons e maus e disso se faz gala, como se tivesse descoberto a pólvora.
Ainda sem vontade de opinar apesar de em vários casos ter formado espessa e decepcionante ideia sobre a cada vez maior prevalência do juízo fácil e da caricatura tomados por factos. A inconsequência e os anátemas passam a definir as relações de poder de forma decisiva. Os meios de difusão de informação impõem um campo de reeducação globalizado.
Se for capaz (não estou muito convencida disso) amanhã voltarei a passar pelos jornais da semana e escreverei um postal sobre actualidade. Por agora vou nadar.